IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


POLÍCIAS ANÓNIMOS

 

Esta coisa da internet, diria o amigo banana, é formidável. Por muitas razões, diria o mesmo abananado patarata.

Feitas estas doutas considerações, o IRRITADO, talvez por razões ou valores já fora de moda, tem o topete de se irritar com o omnipresente anonimato que faz o seu glorioso caminho nestas ciberparagens.

 

O meu pai costumava dizer que “anónimas só as esmolas”. Queria significar que só é legítimo que uma pessoa se esconda para evitar que alguém lhe fique a dever um favor, ou para que não a acusem de andar a exibir os seus brilhantes feitos. Para além disso, anónimos eram os bufos, os pides, as alcoviteiras e outras gentes de semelhante jaez.

 

A “moral” republicana ou – não sejamos maus! – a internet deu cabo deste tipo de valores. Na net, o pessoal pode insultar à vontade, pode denunciar o que lhe apetecer, verdade ou mentira, pode fazer as mais extraordinárias afirmações, perseguições e intrigas, pode incensar a pedofilia e a prostituição, virtualmente pode dizer tudo e o seu contrário a coberto do anonimato.

 

(Em abono da verdade, diga-se que também há a posição oposta, isto é, milhões de pessoas que põem na net coisas que, antigamente, faziam parte da privadíssima esfera de cada um. Tudo com fotografias, nomes, “amigos”, etc., quer dizer, para muita gente os feitos mais comezinhos deixaram de fazer parte de uma esfera a cada um reservada para passar a ser motivo de pessoal propaganda, esta por definição avessa ao anonimato.)

Mas isto foi um parêntesis.

 

A reflexão vem a propósito de uma auto-laudatória local de hoje, no jornal privado chamado “Público”. O dito medium gaba-se de ter dado uma machadada no anonimato dos comentários que usa publicar no seu site. Quem quiser mandar as suas bocas poderá fazê-lo, mas tem que se identificar. O IRRITADO não faz a mais pequena ideia do que seja tal identificação, mas demos de barato que se trata de coisa séria.

Muito bem. Desiludam-se os bufos, os pides, as alcoviteiras e as gentes do mesmo jaez.

Verdade?

Não. Mentira. É que o jornal em causa guarda os últimos parágrafos para informar que quem quiser fazer denúncias ou outras coisas tão nobres quanto elas, poderá sempre fazê-lo anonimamente.

Bastará ligar para a redacção e dizer de sua justiça. Mais ou menos assim:

– Está? É da redacção do “Público”?

– Exactamente. Faça o favor de dizer.

– Posso falar com o funcionário que trata das denúncias anónimas?

– Com certeza. Só um momento.

Trrim, trrim.

– Jeremias Picolete. Boa tarde. Faz favor de dizer.

– Olhe, é para comunicar que a prima da porteira do ministro da guerra, viu o dito com uma grandessíssima piela a fazer xixi à porta do Trombinhas às seis da manhã.

– Interessante. Tem fotografias?

– Não. Mas há mais quem tenha visto.

– Está bem, vamos investigar. Muito obrigado pela sua comunicação. Boa tarde.

Pode imaginar-se o que se segue. Após investigações dos profissionais do “Publico”, veio a provar-se que um segurança do Trombinhas assistiu à mijinha, libertada em catadupas na via pública por um tipo que foi identificado como ministro da guerra através de uma fotografia do mesmo, levada pelo jornalista que o entrevistou no local do crime. Livres somos de imaginar a continuação da história. Não será difícil.

 

A notícia provocou a presente irritação. Mas há pior. O ministério público, as polícias, outras autoridades, também adoram denúncias anónimas e, oficialmente, agem em conformidade com elas.

 

O tempora, o mores!

 

14.8.13

 

António Borges de Carvalho



3 respostas a “POLÍCIAS ANÓNIMOS”

  1. Alguns anos antes de morrer, talvez em 1995 ou 96, o meu avô perguntou-me “olha lá, afinal o que é isso da internet?”. Na altura, pouca gente a tinha; eu acedia através da faculdade. Disse-lhe que eram uns computadores ligados uns aos outros, que permitiam partilhar informação. Ele pensou uns segundos, e não perguntou mais nada. Creio que sabia que não era para ele. Até ao fim dos seus dias, continuou a escrever na sua “Torpedo” do tempo da II Guerra. O meu pai, até hoje, nunca usou um computador. Olhar para bits e bytes num écran parece-lhe a maior perda de tempo do mundo. Suponho que o Irritado esteja algures a meio deles na idade, mas superou o analfabetismo informático: tem um blog, troca emails, consulta jornais, etc. Porém, algumas coisas devem fazer-lhe confusão, e o anonimato é uma delas. A internet deve permitir o anonimato. Faz parte da sua essência, e do seu poder. É a liberdade de expressão mais abrangente e democratizada que existe. Querer identificar qualquer cão ou gato que deixe um comentário é – isso sim – pidesco. Todos sabemos para que isso serve, mas o Irritado finge não saber: serve para proteger os corruptos, os trafulhas, este status quo podre que prefere abafar as verdades, e que processa quem as diz. Serve para os Pintos de Sousa e Relvas da vida protegerem o seu “bom nome”, que não têm e nunca tiveram. Serve para branquear ainda mais os media e a sociedade, em nome do politicamente – ou pulhiticamente – correcto. O que está em causa não é um político mijar numa porta às 6 da manhã; é arruinar o país em proveito próprio, chular-nos e roubar-nos, e alguém dizê-lo com todas as letras. É isso que querem abafar. Além da impunidade judicial, devido às leis mafiosas que fabricam e a esta “Justiça” de anedota, querem também a impunidade social – querem passar despercebidos. Já só lhes falta isso. Há que denunciar os pulhas, Irritado. E neste regime podre, o anonimato é mais benéfico do que prejudicial.

    1. Cheira-me a que podia ser seu pai. Destas coisas de computadores sei mais ou menos o que preciso. Às vezes até aprendo umas coisinhas. Se o anonimato é democrático, vou ali e já venho. O Torquemada deve estar muito contente lá na cova. Dados os princípios que defende, sou levado a pensar que o Filipe Bastos, se calhar, é capaz de se chamar Jeremias da Fonseca…Como vê no último parágrafo do post, tem o caminho aberto: diga o que quiser de quem quiser, que as autoridades adoram. Até já têm metido muita gentye em trabalhos por causa dos Jeremias.

      1. Creio que a questão, como constatámos por ex. no episódio da Wikileaks (tretaleaks), é que o Irritado gosta de segredinhos. Gosta de tudo bem tapado, escondido e calado, não vá descobrir-se alguma careca… O país está a saque? Somos governados por chulos e corruptos? Dane-se: o importante é manter as aparências. Confiemos nas instituições e na “Justiça”, que tão bons resultados nos têm dado, não é?

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