Um bombeiro foi preso por andar a atear fogos.
À primeira vista, trata-se de uma coisa escandalosa, um bombeiro incendiário. Uma contradição nos termos.
Vistas as coisas um pouco mais a fundo, há que compreender a filosofia do detido. A verdade é que, se não houvesse incêndios, os bombeiros não serviam para nada. Iriam engrossar a legião dos desempregados. Assim, o que o homem terá feito mais não foi que colaborar com o senhor Pinto de Sousa na sua luta sem tréguas contra o desemprego.
E, se formos ainda mais fundo, o que o bombeiro fez não é normal, nacional e deontologicamente correcto? Não é o que faz a multidão de funcionários estatais e autárquicos que, todos os dias, arranjam as mais rebuscadas catracas para dificultar a vida ao próximo? Se eles não criassem dificuldades, para que serviriam? Se um processo na câmara fosse despachado num prazo curto, o que fariam os funcionários? Ah pois, é isso, iam para casa!
Se a coisa for bem trabalhada, chegar-se-á ao pleno emprego. Era assim na URSS, não era? E nós não somos socialistas? Não votámos neles?
O melhor que tem a fazer o juiz que tratar do caso do bombeiro é mandá-lo em paz e propor ao Carvalho da Silva que lhe dê a medalha de serviços distintos da Intersindical.
António Borges de Carvalho

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