Eram seis da manhã. Costa rebolava-se na cama em estertores de macaco. O fantasma do 44 perseguia-o pelas ruas de Atenas, entre coqueteiles molotov e meninas do Syriza que, com a Catarina e a outra, lhe saltavam às canelas. Acordou cheio de suores frios, com os pés de fora. Tirem daqui o 44! Levam as gajas para Évora! Eu não quero mais relações com esta gente…. Aos poucos, com os carinhos da mulher, lá foi retomando a compostura. Lavantou-se, um duche quentinho e, roupão de turco, desceu à cozinha onde a senhora já tinha posto uns ovos mexidos e um Sumol fresquinho em cima da mesa. Considerava-se completamente recuperado quando tocaram à porta.
– É o Galamba, e parece que é urgente. O tipo vem nervosíssimo.
– Mete-o na sala, que já lá vou.
Encontrou o Galamba às voltas, parecia um touro mal lidado.
– Senta-te homem, tem calma. Que aconteceu?
– Os gajos do INE descobriram que o desemprego já está abaixo dos 11 por cento.
Mais um pesadelo, pior que o 44, pior que os coqueteiles Molotov, pior que a Catarina e as outras. A pior manhã de que Costa tinha memória. Descontrolado, começou a espumar pelos cantos da boca. Tremebundo, atirou-se para um sofá. As pernas encolhiam e esticavam meio tontas.
– Calma António, temos que pensar…
– Calma o quê? Pensar o quê? Já pensámos tudo o que havia a pensar, já metemos no desemprego os emigrantes que trocaram o emprego de cá pelo de não sei onde, já metemos no desemprego os tipos que estão a prazo, os estagiários, os que não querem trabalhar, e esses sacanas do INE continuam com a merda das contas. Raio! Ainda por cima nem sequer se pode dizer que estão ao serviço da coligação, gaita, outra vez! Não será manobra do 44?
– Isso não sei. Já me falta o paleio. Meti aquela dos milhões de desempregados por culpa do Passos, mas acho que já ninguém come disso… que fazer, porra?
Perante o desespero do seu mais trauliteiro porta-voz, Costa tratou de se acalmar. Que diabo, o chefe sou eu, tenho que cuidar da imagem, mesmo perante este valdevinos tenho quem mostrar coragem. Pensou, pensou, e teve uma ideia, coisa que já não lhe acontecia há anos.
– Olha, vamos fazer outsourcing.
– Quê?
– Outsourcing. Consultamos o Carvalho da Silva, e ele faz mais um estudo sobre o desemprego. Com o jeitinho académico que lhe arranjaram, o gajo descobre que os reformados, pensionistas e quejandos – por exemplo os não contributivos -, os hospitalizados, os vendedores ambulantes, os feirantes, os que trabalham por conta própria, advogados, dentistas, canalizadores, os biscateiros e tantos outros, tudo gente sem patrão, tudo desempregado. Vais ver que, com a colaboração do Carvalho da Silva arranjas pelo menos mais um ou dois milhões de desempregados…
– Tens razão, chefe, vou tratar disso. É para já.
– Pois, filho, vê se te avias quanto antes. Olha que, a tempo de apareceres em todos os telejornais, tens que fazer uma declaração clara, transparente, séria e sem dar lugar a dúvidas.
– Vou-me a isso. Até logo.
– Só mais um instante, filho. Assim que tiveres tempo, trata de me trazer o rol dessa gente do INE. Quando tivermos oportunidade, pomo-los a todos no olho da rua e metemos lá gente de bem,seleccionada pelo Grande Oriente e avalizada pelo secretariado.
– Assim é que é falar. Até logo.
Cheio de fé e militância, o ultramontano sai, a salivar com a antecipação do seu discurso da tarde.
Mais calmo, Costa, ao espelho, alinha as cãs dizendo para consigo: que diabo, tanto pesadelo dá cabo de um homem. E os meus macro-trutas que não meteram no programa a abolição das estatísticas…
6.8.15
ET. Não se sabe se aconteceu, mas é provável.

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