Na campanha para as legislativas de 1985, Francisco Lucas Pires propôs que a política portuguesa se orientasse para o fim das grilhetas socialistas, constitucionais e sociais, que o manietavam, que tivesse a coragem de liberalizar a República, de apelar à liberdade da sociedade civil em vez de continuar a controlá-la e a condicioná-la, de concitar as suas energias para um futuro responsável e livre em vez de as “dirigir”, de pleitear por um Estado que fosse a super estrutura de uma sociedade autónoma e não o omnipresente condicionador da vida dos portugueses.
Este discurso caiu mal no próprio CDS, partido liderado por Lucas Pires. Lembro-me de ouvir, por exemplo, o Prof. Adriano Moreira, num discurso de comício, dizer: “andam para aí a falar de liberalismo…”, em claríssima oposição ao seu próprio líder, que o convidara para as listas…
E, no entanto, era Lucas Pires quem punha o dedo na ferida, hoje horrenda pústula a destruir a nossa vida, sem que fosse quem fosse, para além dele e depois dele, tivesse tido a coragem, o poder, a determinação de se lembrar mais da vida das pessoas que dos privilégios do Estado, fonte primeira da infecção.
Percebendo que, na altura como hoje, nada de liberal havia a esperar do CDS, Lucas Pires teve a tristeza de se demitir, vindo mais tarde a ser deputado europeu pelo PSD.
A morte levá-lo-ia prematuramente, os seus sonhos continuam por realizar. Pior, continuam sem ter quem os entenda e promova.
Por pudor, não direi o que sinto ao ver o seu filho Jacinto como mandatário da juventude de Manuel Alegre. Mas não posso deixar de lamentar que, em vez de para a frente, seja evidente que andamos para trás.
10.1.11
António Borges de Carvalho

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