Já viram bem o que se está a passar com as escutas dos telefonemas Vara/Pinto de Sousa, Pinto de Sousa/Vara?
O PGR chuta para o PSTJ, o PSTJ chuta para o PGR. São tão bons neste ténis que o João Lagos devia contratá-los para o Estoril Open.
O defensor oficioso do senhor Pinto de Sousa, o ilustre* Júdice, já declarou ex-catedra que as escutas que envolvem o primeiro-ministro não valem um chavo e “devem ser sumariamente arquivadas”.
Entretanto, parece que o PGR e o PSTJ querem ir mais longe que o ilustre* causídico, só que tiram o cavalo da chuva dizendo que é ao outro que compete, não arquivar, mas destruir as escutas.
Para além ou para aquém do que dizem os jornais, o que, em resumo, se sabe, é que, sem que nada se tenha esclarecido, o senhor Pinto de Sousa já está safo do Fripór (grafia correspondente à pronúncia do indivíduo), da história do andar, do romance do canudo, dos projectos da Covilhã, das trafulhices da Cova da Beira…
Nas televisões, vemos os mais distintos comentadores atirar-se ao Vara, ao Penedos, ao Loureiro, àquele tipo do Eurojust, que todos, culpados ou não, deviam ter-se demitido com a maior prontidão, como fizeram os impolutos cidadãos Coelho e Vitorino.
A pergunta, para estes comentadores, deve ser a seguinte: e o senhor Pinto de Sousa? Não é evidente que, dentro da mesma ordem de ideias, já devia ter-se demitido há uma data de anos? Por que carga de água fica fora do baralho? Basta-lhe alegar que é vítima de forças ocultas e está o problema resolvido? Basta-lhe falar em campanhas negras para ser esquecido pelos comentadores e pelos jornais?
Já repararam que toda a porcaria que por aí se badala (o Fripór, os lixos da Cova da Beira, as sucatas, etc.) começou no tempo em que o senhor Pinto de Sousa era ministro dessas coisas? E isto quer dizer coisa nenhuma?
Sempre será verdade que o homem passa entre os pingos de chuva sem se molhar com a mesma facilidade com que abre faculdades ao Domingo, com que projecta impunes mamarrachos, com que faz quatro exames de cada vez, com que compra andares, com que com que?
Julgo que sim. Todos os inquéritos, todos os processos, todas as investigações com que os agentes da Justiça nos vão brindando parecem não ter outro objectivo que não seja o de mostrar serviço, tendo o cuidado de concluir coisa nenhuma.
Que país este!
10.11.09
António Borges de Carvalho
* Em sentido etimológico. O que não dá luz, não ilumina, não radia, é baço e vive nas trevas. ABC

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