Aqui há dias, o IRRITADO almoçou com uns brasileiros, gente “da alta” lá do sítio. Como é natural, a necessidade de fazer conversa levou a considerações várias sobre as formas diferentes de falar português em Portugal e no Brasil. Veio à baila, como não podia deixar de ser, o repugnante Acordo Ortográfico.
O IRRITADO entrou com aquela dos espetadores em vez de espectadores. E disse que não queria ser como os brasileiros, que andam a espetar em vez de ver, ou assistir. Isto provocou uma risada de espanto. É que, disseram os brasileiros, lá na terra deles, como cá antes do acordo, se escreve espectador e se diz espectador com o E bem aberto e o C claramente pronunciado. O que quer dizer que por cá, quando se trata de asnear, somos os maiores!
No seguimento da conversa, ficou o IRRITADO a saber que, no Brasil, a começar na classe AAA e a acabar na ZZZ, não há uma só alma que, em relação ao AO, ponha sequer a hipótese de o pôr em prática ou de o respeitar. E a grande maioria nem sabe que tal coisa existe.
Anda este país a gastar fortunas em novas gramáticas, novos livros escolares, novos dicionários, etc., por causa de uma porcaria que não vale a ponta de um corno, até para aqueles teoricamente beneficiados com ela. Anda este país a vender aos africanos, aos timorenses, aos macaístas, o raio de uma palhaçada que nada lhes interessa, antes pelo contrário, já que escrevem português na versão portuguesa e se estão nas tintas para a estupidez dos nossos “linguistas”, dos nossos “académicos” e dos nossos políticos que se deixam levar por tretas do calibre do AO.
Andam os alunos e os professores à nora sem saber o que fazer, e continua a haver uns pataratas a fazer propaganda “oficial” ao coiso.
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Por falar na língua, ocorre comentar os infinitos, coisa maltratada por quase toda a gente, a começar por esse luminar da gramática que se chama Edite Estrela, a acabar no Saramago e no Lobo Antunes, percorrendo todos os livros, jornais, telejornais etc..
Numa palavra, trata-se do velho dito “os cavalos a correr, as meninas a aprender”, em novíssima versão: “os cavalos a correrem, as meninas a aprenderem”.
Passo a explicar. Em remotos tempos – quando ainda havia algum respeito pela língua – os infinitos pessoais eram usados em raras formulações sintáticas. Como, aliás, acontece em todas as línguas latinas.
Agora, é assim: “eles foram à bilheteira para comprarem os bilhetes” – um complemento circunstancial a concordar com o sujeito! “e tu Maria Adelaide a desistires na cama” (Lobo Antunes) – um infinito regido por preposição, com valor de gerúndio, no plural!; “vendem-se andares” – o verbo a concordar com o complemento directo, não com o sujeito (indeterminado, singular)! até o primeiro-ministro diz “que se lixem as eleições” em vez de “que se lixe as eleições”.
E a dona Telma Monteiro que, segundo o DN de hoje, chorou compulsivamente depois de perder um combate?
E os pleonasmos dos comentadores? “Eu pessoalmente”, “parece-me a mim”, todos os dias na televisão, às centenas, em todos os canais, ou canis.
Se o IRRITADO tivesse pachorra para ler, tim-tim por tim-tim, um só jornal que fosse, encontraria destas coisas às centenas, ou aos milhares.
Não há nada a fazer. Já ninguém sabe a sua própria língua.
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Anda para aí um “escândalo” dos diabos com a história dos ricos. Parece que há um tipo que tem dois mil milhões, outro mil e tal, e uns tantos umas centenas.
O patarata cidadão fica a pensar que os tipos têm, género Tio Patinhas, cofres e cofres cheios de dinheiro, de preferência roubado. O leitor comum fica a digerir a ideia, repetida por toda a parte, do fosso entre ricos e pobres. Os incautos ficam a achar que os tipos não passam de uma corja de gatunos.
E, no entanto, os nossos milionários, se comparados, por exemplo, com os dos países nórdicos – para falar em países cheios de “justiça social” – são uns tesos, coitadinhos. Muito, muito tesos.
Há nisto vários equívocos que alimentam – de propósito! – a ignorância dos invejosos, que são quase toda a gente neste país de ignorantes.
Primeiro, os tais ricos não têm a massa na gaveta. Têm empresas, acções, patrimónios vários, coisas que, literalmente, não são o metal que tilinta em ignaras imaginações. Segundo, empregam pessoas que não têm, como eles, talento para criar riqueza. Terceiro, assim como nós estamos mais tesos, eles estão menos ricos. Quarto, o que eles têm, ou dominam, ou gerem, não tem nada a ver com o tal fosso na distribuição da riqueza, que é outro problema. Quinto, saquem-lhes a massa, distribuam-na pela malta, e vão ver onde a malta vai parar. Sexto, se os nossos mais ricos fossem tão ricos como os ricos suecos, noruegueses ou dinamarqueses, estávamos todos muito melhor.
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O “Expresso” tece loas à dona Isabel Moreira. Porquê? Porque a dona Isabel Moreira se demarca da “carneirada”, ou seja, dos outros deputados. Quer dizer, andar a asnear todos os dias é coisa óptima. Não interessa a substância do que a mulher faz. O que interessa é que faça coisas, boas ou más, que contrariem os demais.
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Máximas do oco:
“Não fui eu, pessoal ou politicamente, que assinei o memorando”.
“O Sr. PM escolheu um caminho. Desejo-lhe boa viagem, mas vai sozinho”.
“O governo e a troica têm estado do mesmo lado e o PS está do outro”.
O rapaz Seguro afirma assim a sua magnífica pessoa. Primeiro, como não foi ele a pessoa que assinou, acha que a troica nada tem a ver com o PS. Faz lembrar uns ministros africanos que o IRRITADO conheceu. Segundo, acha que, como não assinou, os outros que se esfaniquem a cumprir o que o outro assinou. Ele está contra. Vão sozinhos. Vão lixar-se. Terceiro, como não foi ele que assinou, é contra. Ou seja, o Pinto de Sousa nunca existiu, o PS do Seguro é uma organização que nasceu com ele, o que ficou para trás era outra gente, em tempos em que a sua magnífica pessoa ainda não tinha vindo iluminar a Nação.
A isto se chama cobardia, irresponsabilidade, vazio mental, ou outras coisas muito piores.
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Segundo o Diário de Notícias, o mais importante de todos os figurantes na abertura dos Jogos Olímpicos é PORTUGUÊS!
É que se diz que há um mulato, cujos avós consta terem sido portugueses e que, parece, ainda tem a nacionalidade. O dito apareceu intermitentemente durante sete minutos na tal coisa, a fazer não sei o quê, de chapéu de coco.
Fica recuperado o orgulho da Nação, tão mal tratado pelos seus improdutivos atletas. Somos ou não somos os maiores, hem?
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(Paulo Portas) “não chama as televisões para protestar contra essa Cristas, criptossocialista que despreza a lavoura e está feita com os seguros e Seguros deste mundo?”
Esta frase basilar foi pronunciada pelo tristemente célebre Santos Silva. Pela primeira vez na vida o homem é capaz de ter razão. Não quanto ao Portas, mas a respeito da Cristas.
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Por falar em Cristas, na crista da onda anda a promulgação da nova lei do arrendamento, coisa que vai dar uma pessegada de tal ordem que nem queiram saber.
Mais uma lei altamente socialista, produzida pela cripto senhora e asnaticamente adoptada pelo governo. A “filosofia” da coisa é a do costume. Quem pode pagar, paga, mas pouco, devagarinho e mediante um processo burocrático digno do Big Brother. Quem tem dificuldades não paga. Pagam os senhorios, coisa que andam a fazer há um século a esta parte. O Estado obriga-os a pagar, isto é, cabe aos senhorios cumprir o preceito constitucional que reza sobre o “direito à habitação”. E, como é evidente, os impostos aumentam sem ter nada a ver com resultados.
E ainda há quem fale em reabilitação urbana! Paleio de Rosetas e de Cristas. A reabilitação urbana não é para fazer, é um pretexto para expropriar e para cobrar mais impostos.
Aos senhorios, não ao Estado, compete pagar os direitos que a Constituição constituiu. Bonito!
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Boas férias!
31.7.12
António Borges de Carvalho

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