Tinha uma flauta
Uma flauta Nicolau
Sua sogra lhe dizia
Toca a flauta Nicolau
Repetia-se esta “canção”, vezes sem conta, quando o Nicolau entrava, horas mortas, no Café Monumental. Não fazia sentido, mas a malta ria-se.
Uma vez, no Municipal de Cascais, fiz de bispo no Frei Luís de Sousa. Dizia duas tretas e saía, cabisabaixo, pela esquerda baixa. Nicolau era a indiscutível estrela da companhia. O “sucesso” durou dois dias e teve, ao todo, uns cinquenta espectadores.
Depois… depois aconteceu muita coisa. Veio a guerra do ultramar, cada um para seu lado. Vi-o, aqui e ali, uma meia dúzia de vezes, nos últimos cinquenta anos. Ironia da vida, caímos nos braços um do outro, na semana passada, no Porto, bar do Palácio das Cardosas. E pronto.
O Nicolau acabou-se.
Não percebo nada de teatro, não vejo telenovelas, não ando por aí, ou por onde ele andava. Não quero prestar-lhe as homenagens fúnebres, aliás já por conta de uma multidão ansiosa de opinar.
Mas deixo uma nota, quanto a mim a mais importante. Num meio onde impera a esquerda mais tonitruante, o Nicolau nunca cedeu. Nunca foi de esquerda, nunca esteve em manifestações “a favor” da “cultura”, nunca andou, de punho levantado, a exigir subsídios do Estado, com cartazes, reivindicações, a clamar por “direitos” e outras pendurices, nunca se confundiu com os bandos de pedintes que pululam nos meios ditos “culturais”.
Riu-se, e fez-nos rir sem nos pedir esmolas, ou seja, prebendas públicas.
Uma excepção. Uma saudade.
14.3.16

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