Há muitos, muitos anos, havia na CML um paisagista que imaginou um re-arranjo dos jardins da Avenida da Liberdade. A coisa terá sido aprovada pelo então Presidente, um senhor França Borges, de genealogia jacobina e fé salazarista.
As obras foram feitas, a avenida transformada numa coisa totalmente diferente. Melhor ou pior, ninguém saberá dizer. Porém, antes que os trabalhos estivessem acabados, deu-se um fenómeno raro naqueles repressivos tempos. Um movimento popular, intelectual e “mediático” sem precedentes. O pessoal não queria que a imagem da avenida fosse alterada e substituída por modernices que reputava de desagradáveis. Muito “democraticamente”, a CML obedeceu ao apelo da malta e a avenida voltou, quase toda, ao seu primitivo look. O paisagista saiu da câmara, passando de empregado a feroz inimigo do satus quo municipal. Criticava acerbamente as podas extemporâneas das árvores e a construção em (mais) altura ao longo da avenida. Ganhou a questão das podas: até hoje, as árvores nunca mais foram tratadas e ficaram entregues a si próprias, como bem se pode observar. Quanto à construção em (mais) altura, coisa horrível que havia de matar toda a vegetação do vale da avenida, esqueceu o assunto depois de ter vendido um prédio que tinha num nobre gaveto da dita. Hoje lá se ergue um feio edifício, bem mais alto que o vendido.
Construiu-se mais uma data de edifícios. A vegetação continua na mesma, indiferente ao anátema do paisagista.
A certa altura, a Gulbenkian resolveu construir o Centro de Arte Moderna, ocupando uma parte dos jardins Vilalva, agora de sua propriedade. A coisa, sob o comando do nosso paisagista, deu brado. Não se podia destruir os jardins, de sua autoria, jóia primeira da coroa da cidade. Os jornais entraram em acção, a malta agitou-se, a Gulbenkian tremeu de medo. Até que o Dr. Azeredo Perdigão, chefe máximo da fundação desde a primeira hora, veio à televisão defender a iniciativa e dizer que jamais os jardins tinham sido projectados pelo nosso paisagista. Uma firma britânica tinha sido contratada para o efeito, tendo o paisagista sido usado, entre outros, para a sua construção. O homem calou-se, o CAM foi construído, coisa magnífica, os jardins nada sofreram. Anos passados, lá voltou ele a assenhorear-se da autoria do projecto, uma vez que já ninguém se lembra das declarações assassinas do falecido Perdigão. Com razão. Águas passadas.
Nos anos oitenta, nova polémica estoira. Havia uma empresa suíça que queria construir um hotel e um centro de congressos no alto do Parque Eduardo VII. Correu tinta, Abecassis foi acusado de tudo e mais alguma coisa. As hostes condenatórias, como é óbvio, eram chefiadas pelo paisagista. Os suíços acabaram por desistir, diz-se que faliram, a ideia foi abandonada. Naquele local, como é evidente, não se podia autorizar uma construção de tal envergadura e com um tal impacto na circulação, no estacionamento, etc.
A roda da fortuna, porém, dá as suas voltas. No tempo da coligação social/comunista chefiada pelo senhor João Soares, outra coisa, bem maior e com mais impacto que o projecto chumbado, havia de surgir e triunfar na mesma zona, ainda que um pouco mais abaixo: o Corte Inglês e edifícios adjacentes. Desta vez a câmara não se preocupava com volumetrias, impactos, estacionamentos e circulações. Vai disto! Mesmo sem licenças, mesmo sem cumprir os regulamentos camarários que, com razão ou sem ela, infernizam a vida do cidadão comum, o monstro urbano construir-se-ia sob o terno olhar do Dr. Soares. Havia, no entanto, um problema: o paisagista! Vai daí, em tirada de grande visão e mestria, o município contrata-o para projectar o jardim do sobe e desce do alto do Parque. E pronto. O paisagista calou-se e o imponente conjunto urbano construiu-se sem mais chatices. Quem sabe, sabe!
Para encurtar esta história, cheia de interessantes episódios, viajemos até ao presente.
A monumental pessegada em que o Presidente Sampaio e a câmara socialista transformaram o caso do Parque Mayer, continua a fornecer material para a paisagística intervenção.
Não contente com o abandono do único projecto visionário que tinha sido pensado já lá vão uns dez anos, não contente com a provinciana pequenez mental do que está em presença, não contente com o estado vergonhoso a que o local tem sido persistentemente conduzido, não contente com a evidente decrepitude dessa inigualável “preciosidade” arquitectónica que dá pelo nome de Capitólio, o nosso homem dedica-se à nobre tarefa de proteger o Jardim botânico, já que o tal projecto “altera a luz, as vistas e a circulação de brisas entre o Jardim Botânico e a Avenida da Liberdade”. Notável!
O Costa tem duas soluções: ou se inspira na sabedoria do seu camarada Soares e trata de contratar o paisagista para não o ter à perna, ou encana a perna à rã, o que também não vai contra a “filosofia” camarária.
13.11.11
António Borges de Carvalho

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