IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


MISTÉRIOS

 

Nesta vida moderna, ele há mistérios insondáveis que o IRRITADO não consegue descortinar. Deve ser defeito meu, deficiências no QI, iliteracia, preguiça, o que queiram. Feito este esclarecimento, ou declaração de desinteresse como de diz agora de pernas para o ar, passemos ao que interessa.

Um por certo estimável senhor Neves, emigrado em Londres, arranjou uma catraca informática para vender artigos de luxo (na sua maioria coisas caríssimas que não valem um caracol) com a qual parece que conseguiu transformar-se num animal qualquer cujo nome me escapa, mas que é designação de uns macacões que, num ápice, passam a valer milhares de milhões. O senhor Neves vem sendo celebrado na imprensa como indivíduo riquíssimo, merecedor dos mais elevados encómios, estudos, opiniões, reportagens, etc. Isto porque, ombreando com Bill Gates e outros trutas, animais de calibre semelhante, resolveu dar dois terços da sua fortuna a uns fundos destinados a praticar o bem. É o que diz a publicidade mediática.

Tudo normal. O que causa impressão, ou incompreensão, pelo menos da parte dos ignorantes como  eu, é que, no meio de generalizados louvores, se proclama que a organização do senhor Neves nunca teve lucros. Pelo contrário, de ano para ano vai averbando resultados negativos. Pergunto: se o homem perde dinheiro, como é que é multimilionário? Rouba a própria empresa em benefício pessoal? Talvez não. Diz quem sabe, ou acha que sabe, que a massa vem da “capitalização bolsista”. Venderá acções da sua empresa por preços astronómicos e embolsará o resultado? Talvez, o que quer dizer que, apesar dos prejuízos, há quem ache que tais acções são um bom investimento? Isso  mesmo. Será? O IRRITADO, dadas as catacumbas em que passeia o seu primitivismo intelectual, tem dificuldades em perceber, ou seja, não percebe mesmo. Aqui há marosca. Qual?

Por outro lado, é estranho que o senhor Neves tenha dito que ia “disponibilizar” dois terços da sua fortuna para fazer casinhas em África, vacinar milhões e outras meritórias actividades. Mas não diz quanto. Diz é que vai fundar uns “fundos”, passa a redundância, fundos esses que gerirá, a bem da humanidade. Não se sabe se tais fundos serão contemplados com triliões ou com tostões. Os comentadores abalizados não esclarecem o povo a este respeito nem, reconheça-se, a respeito nenhum.

Não fico à espera de esclarecimentos. Não vale a pena. O que espero com ansiedade é que o senhor de Belém condecore o senhor Neves, pelo menos com um alto grau da Ordem do Infante. Um português de primeira que, como tem prejuízos, não paga impostos. E, se pagasse, pagaria em Londres.

O que me vai acontecer, pelo menos, é que me chamem burro velho, incapaz de aprender línguas. Que se lixe.

 

28.9.20       



4 respostas a “MISTÉRIOS”

  1. Afinal está irritado com quê?Parece que ‘negócio’ dos fundos é para não pagar impostos, assim gasta com os fundos e tem prejuízo. O outro também pagava uns impostosinhos na Holanda e por cá arranjou uma fundação, universidade e tal, e impostos niques, e tudo nas calmas e com coisas que valem caracóis como fruta de refugo e outros práticas de merceeiro de bairro.

  2. Parabéns ao Irritado por questionar o que poucos ousam: a ilógica, insustentável e nociva mama dos casinos a que chamamos mercados. A maioria finge que percebe estas ‘engenharias financeiras’, esta espiral de especulação e loucura, enquanto repete o seu ridículo jargão, criado para obscurecer as aldrabices, e tenta passar por entendido. É como o sistema monetário. Há-de perguntar aos ‘especialistas’ como é criado o dinheiro; ou como pode um sistema baseado em crescimento infinito, dívida perpétua e impagável ser racional; ou quem ganha com ele. Como lhe digo há anos, a esquerda pode ter capturado certa parte da Overton window, da academia e dos media, mas a ortodoxia económica e financeira é de direita. 99% dos especialistas que ouvimos e lemos, 99% do que se ensina nas faculdades e se regurgita nas TVs, é ‘neoliberal’. O capitalismo ganhou. E está cada vez mais selvagem. V. vive na ilusão de que pode ser controlado ou regulado, mas a realidade desmente-o todos os dias. Os seus heróis Thatcher e Reagan deram o mote e não há volta atrás. Não sem porrada, ou uma crise tão grande que mude tudo. V. tem outra ilusão: a de que quem critica o capitalismo, ou esta partidocracia, está a louvar o comunismo. E que entre uma coisa e outra não há alternativa. Começa logo aos gritos, “ditadura! gulag!”. Pois aqui tem o resultado.

    1. Como disse Revel, o capitalismo é a vida. Por outras palavras, o capitalismo não é coisa “evitável”. Mesmo nas mais ferozes “economias” socialistas, o capitalismo brota por onde pode. É por isso que os motoristas de táxi na URSS vendiam caviar, os criados dos hotéis trocavam rublos por dólares e as criadas se ofereciam por um par de meias ou um saco de plástico. É por isso que o Filipe, sendo ferozmente anti-capitalismo, tem o seu trabalho “liberal”, como é seu mui nobre direito. Adam Smith, “acusado” de liberal, já previa que a mão invisível pudesse ter vícios e tornar-se anti-social. As derivas financeiras da economia actual são o que são, e ainda não se descobriu remédio. Uma coisa é defender a reforma do sistema, outra é, simplisticamente, pô-lo em causa. Mais uma vez recordo que não há liberdade sem capitalismo.

      1. Depende de quão abrangente e rosada é a sua definição de capitalismo. V. atribui-lhe tudo que é bom no mundo, da liberdade ao progresso. O capitalismo também nos deu a escravatura, a exploração económica e social de milhares de milhões de adultos e crianças, desigualdade obscena, tremendas injustiças, incontáveis crimes e guerras. Confundir capitalismo com liberdade e vida é inquinar a discussão; quem pode ser contra isso? É como dizer-lhe que socialismo é igualdade e dignidade; v. será contra tais coisas? Assim é difícil chegar a algum lado. A questão é se direitistas e conservadores como o Irritado querem chegar a algum lado: a qualquer crítica ou sugestão de mudança lá vem a gritaria “ditadura! gulag!”. Na bizarra lógica em vigor, tão encostada à direita que v. nem dá conta, tudo que não seja mama em roda livre é defender um novo Kampuchea. Claro que é mais fácil ser egoísta, ceder à ganância, olhar para o nosso umbigo, encolher os ombros à desigualdade e às injustiças do mundo. Claro que o capitalismo é mais fácil. Difícil é criar uma sociedade mais justa. E claro que temos de pôr tudo em causa. Sempre.

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