IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


LOUÇAS & Cª

Almas puras e grandes defensores da “liberdade”, capitaneadas pelo Louça, por um senhor de nome Cintra Torres e por uma besta que é ministro do negócios estrangeiros na Austrália(!), andam por aí numa fona a demonstrar ao orbe a excelência moral da operação Wikileaks.

Trata-se, segundo os seus politicamente correctíssimos arautos, de um “novo paradigma”, de um enorme avanço na “liberdade” das pessoas, do nascimento de uma “nova era”, de bem-vindas “novas portas” que a idade da electrónica abre à humanidade.

Têm razão. É um novo paradigma, é a inevitável explosão do que de pior a internet criou: o anonimato, com o seu cortejo de irresponsabilidade, de ausência de escrúpulo, de fuga a qualquer norma moral ou cívica, de branqueamento da mais cobarde criminalidade.

Os chamados hakers, até há pouco criminosos de delito comum, passaram, de um dia para o outro, a heróis da liberdade. Os ladrões da internet passaram a jornalistas. Os traficantes passaram a honestos trabalhadores da informação. Um soldado traidor à pátria passou a paladino da “transparência”.

 

O chefe, o patrão, o génio incompreendido que dá face à coisa, utiliza como chamariz publicitário a sua própria fronha amordaçada com a bandeira dos EUA. Uma imagem que define o inimigo, a intenção política que subjaz à “obra”. É esclarecedor. Diz-nos que o seu comércio não é o da informação, mas o de manobras políticas orientadas para o descrédito de uma nação cheia de defeitos mas, apesar de tudo, uma das maiores democracias do mundo, à qual devemos a liberdade propriamente dita, ou seja, a negação activa do totalitarismo e da mordaça.

Ao contrário dos passadores de droga e dos traficantes de carne humana, o patrão da trafulhice informática pode enriquecer à vontade à custa dos produtos que roubou e mandou roubar, pode vendê-los a quem quiser. Dá a cara, dirá quem me lê. Pois. Não é culpado de nada. Só publicita, só vende, só trata de material “que lhe mandam”. Não roubou nada a ninguém, nem às pessoas nem ao Estado. É um santo.

 

Mais. O que o Wikileaks defende – o anonimato e a irresponsabilidade dos bandidos de cujas práticas é arauto – não pratica. Pelo contrário, exige a identificação de quem quiser dialogar com ele, assim criando valiosa base de dados, coisa vendável aos polícias da opinião com as indicações necessárias a perseguições de vária ordem.

Mas o génio é um herói. Se uma respeitável e democrática Justiça – a sueca – o acusa de coisas que nada têm a ver com o seu negócio, os Louças & Cª concluem que está inocente e proclamam tal inocência como dado adquirido e irrefutável. O homem, esse, aproveita para uma monumental campanha de publicidade, que está à vista de toda a gente.

 

O herói da Wikileaks está acima do Estado de direito, de nada pode ser, sequer, acusado. Nem pensar! O deus ex-máquina dos Louças & Cª é tão divino que a justiça dos homens nada deve poder contra ele. Tudo o que dele se disser é pura invenção.

 

Entretanto, não sei onde, uma gigantesca organização, valendo-se de omissões legislativas de diversa natureza, continua a trabalhar, atestando o florescimento do negócio, a estupidez pública e o aturado trabalho dos Louças  Cª para a instauração do reinado do Big Brother, desde que o Big Brother sejam eles.

 

13.12.10

 

António Borges de Carvalho

 

 

Com a devida vénia, a seguir transcrevo uma lúcida prosa de José Manuel Fernandes, ínsita no “Público” de Sábado.

 

O debate sobre o WikiLeaks tem, a meu ver, omitido um ponto central: o das motivações do seu fundador, Julian Assange. Parece ser dado por adquirido que o australiano tem como objectivo uma maior transparência no funcionamento das nossas democracias, quando isso não á verdade. Assange, na verdade, nem pensa que vivamos em democracia. Em 2006, escreveu vários textos onde defendeu que os Estados Unidos – e o Ocidente em geral – não eram mais do que uma “conspiração autoritária” e que os seus lideres eram todos “conspiradores”. A única forma de deter tais “conspiradores” seria dificultar a forma como comunicam “uns com os outros”, gerando fugas de informação que obrigassem “o Estado securitário” a diminuir a capacidade da sua rede computacional, tornando-o assim “mais lento” e “mais estúpido”. Olhando para o impacto das revelações da WikiLeaks e para o que se prevê que aconteça no apertar das regras nas comunicações internas nos Estados Unidos, Julian Assange está a conseguir atingir estes seus objectivos.

Devem, pois, desiludir-se os que pedem ã WikiLeaks que revele também segredos da Rússia, da China ou do irão:

isso não faz parte da sua agenda política. E também é bom que, na comunidade jornalística, se saiba separar o trigo do joio: uma coisa é noticiar o que, mal ou bem, foi colocado no domínio público, o que deve sempre ser feito de forma livre e responsável; outra coisa é fingir que Julian Assange é um campeão da liberdade quando, na verdade, é um anarquista que manipula sem grandes escrúpulos enormes quantidades de informação e promove violações de comunicações secretas não em nome da transparência mas para tentar destruir o tipo de sociedade em que vivemos.

E bom sabermos ao que andamos e de que lado estão os que defendem a liberdade, assim como os que a utilizam para melhor a destruirem. Isto não significa deixar de noticiar os segredos revelados sempre que estes forem de interesse público, antes conhecer o terreno (minado) que se pisa.

 

 



23 respostas a “LOUÇAS & Cª”

  1. Este florilégio,é produto de umas alminhas,que há bem pouco tempo cantavam loas a quem praticava a violação do segredo de justiça.QUANTO MAIS FORTE É UM CARÁCTER,MENOS SUJEITO ESTÁ Á INCONSTÃNCIA.

    1. Tinha-lhe prometido, e a mim mesmo, não ligar mais às suas estranhas opiniões.Desta vez, porém, não resisto a dizer-lhe que, se não me percebeu, faça um pequeno esforço para perceber o José Manuel Fernandes. A não ser que, como é muito possível, não ligue ao que ele escreve, já que o homem parece não ser adepto do PS.

      1. Asseguro-lhe que o percebi muito bem,aliás o assunto aqui já é recorrente.Não vejo onde possa estar o desajuste entre o que escreveram e o meu comentário.Quanto ao sr jornalista,cuja ética profissional não admiro,pouco me importa a sua simpatia politica.Você teima em ver todas as coisas pelo prisma da partidarite!!!

    2. É realmente caso para dizer…quem te manda a ti sapateiro, tocar tão mal …

  2. Caro Irritado,Concordo com todo o seu post mas nele há um parágrafo que vale a pena repetir: “É um novo paradigma, é a inevitável explosão do que de pior a internet criou: o anonimato, com o seu cortejo de irresponsabilidade, de ausência de escrúpulo, de fuga a qualquer norma moral ou cívica, de branqueamento da mais cobarde criminalidade.”Não pode descrever melhor o que, numa escala felizmente muito mais restrita (aqui não se pode falar de criminalidade, é apenas primária boçalidade) vim a descobrir nalguns comentários nesta dimensão difusa que é a internet, em que nos cruzamos com todo o tipo de gente e onde as pessoas de bem com naturalidade mostram aquilo que são – e as más também, porque não se mostrando, não vêem necessidade de dissimular.O que impressiona é a sua fátua amoralidade, pervertendo tudo sobre o que avaliam, seja família, religião, sociedade, cultura ou economia. Onde vêm um Vara ladrão – coisa sabida desde que foi ministro – clamam logo contra a opressão dos juízes; quando o seu líder mente – e se ele tem mentido! – aduzem vaidosos que “ele é muito esperto e ninguém o vira” (o próprio descreve-se como um animal feroz, decerto empregando o adjectivo na acepção de “selvagem” e o substantivo no seu sentido directo); e sempre, mas sempre do lado errado da questão: durante todo o ano passado, em vez de tentarem obviar à crise, quebraram lanças para que os maricas pudessem “casar”, e outras estupidezes de gente bronca. E não os estou a insultar, senão a definir com a elegância possível, atinente a não desdourar a verdade.Até nas coisas mais pequenas são assim. Só um exemplo, que se prende com as inconfidências do Wikileaks: parece que os americanos disseram que Sócrates é muito telegénico. Fará com certeza acelerar os corações das criadas de servir e dos invertidos, admito que sim. Ele próprio, num frente-a-frente com Louçã, blasonava ser o 6º homem mais elegante do mundo. E no entanto, sempre que o vejo entrar no parlamento ou sair de alguma cerimónia, lá vai ele com a ponta da gravata uma mão-travessa abaixo do cinto. Nunca lhe ensinaram que esta não deve ficar nem acima nem abaixo do cinto, como os punhos da camisa devem acabar junto do fim da manga, sob pena de se parecer um “padeirão” – que é o que ele parece. Também de todo desconhece que não se anda com o casaco (com certeza ele diz “paletó”) desabotoado e aberto, que tem o mesmo mau efeito que usar os atacadores dos sapatos desapertados. Eis como os fatos de talhe perfeito, custosos de milhares de euros nos exclusivos alfaiates de Rodeo Drive em Los Angeles (já todos perceberam quem paga a conta…) apenas servem afinal para acentuar mais a grosseria do cavalheiro.Quanto ao mais diverte-me assistir a alguma gente esforçar-se por parecer subtil, desconhecendo que aqueles em que tal qualidade é natural logo descobrem como na tentativa de parecer o que não são, apenas exageram tolamente – por essa mesma falta de subtileza.Um abraço amigo doManuel

    1. Obrigado, ManuelSe eu caracterizei menos mal o Wikyleaks, v. fê-lo com mestria ao Pinto de Sousa. AbraçoABC

      1. Caro Irritado,Sem falsa modéstia, o mérito não me cabe. Temos que concordar que o nosso primeiro-ministro prima por nos fornecer matéria-prima de primeira qualidade (ele e os seus primos) para tudo o que seja inepto e caricato.Pode dizer-se que não há mal de maior em ser-se possidónio, mas a forma e o fundo interligam-se sempre nalguma dimensão e ao mau aspecto exterior corresponde quase sempre um mau fundo.À fachada trapalhona de parolo a presumir de cavalheiro, corresponde um aprendiz de feiticeiro que deixou falir o único negócio em que se meteu, com o seu sócio Vara – sempre esse homem fatal, agora degredado em África, como o Zé do Telhado – numa falência tão estranha que ele se recusou explicá-la numa entrevista.Tudo isso nos seria indiferente, se ele não fosse, com Guterres, o principal responsável por essa proeza muito especial de, entre 195 países, nos colocar como a 4ª economia que menos cresceu nos últimos 10 anos, com uma dívida que cresce a um ritmo de 2 milhões de euros por hora. É de loucos.É por isso assombrosa, mas já um tanto cansativa, a vazia pertinácia dos pacóvios socialistas que para o defender argumentam como quem atira um punhado de palavras na esperança que alguma acerte. Ainda há uma semana me lembrava de Shaw dizer que não se devia tentar lutar com um porco, porque além de nos salpicarmos, ele gosta de se revolver no lameiro. Acrescento eu que não se lhes deve tentar ensinar a pensar – porque apenas incomodamos o suíno. É mais sensato fechar a cancela da cortelha e deixá-los grunhir como gostam, bem à sua vontade.Já basta que haja aqui um irritado.Um abraço doManuel

    2. Só me dirijo a si porque aqui há atrasado, me apelidou de estupido inculto,entre outros elegantérrimos adjectivos, porque escrevi mal “ámen”.Fiquei na duvida se estamos parante o verbo VER ou o verbo Vir,só para entender o sentido do seu escrito.

      1. Não há razão para ficar na “duvida”, estamos parante alguém que vem aqui sem ver. Sem ver as figuras tristes que, por vezes e muito infelizmente, escolhe desempenhar.Com toda a certeza nunca o apelidei de “estupido”, até por ser dicção que não consta no dicionário. Mas responder a argumentos com injúrias é sem a menor dúvida um acto de estupidez e quem o comete pode e deve ser definido como pessoa estúpida. E se fosse preciso prová-lo basta que se verifique como continua a ser uma reacção estúpida que se agite com quem se limita a apontar essa deficiência em vez de se revoltar com ele mesmo, por ser assim.Acho que já tinha dito antes e peço desculpa por me repetir: este blog é uma sala virtual onde o Irritado nos convida a entrar e conviver, a dar a sua opinião e dialogar. É uma pena que alguns entendam esse favor como autorização para ser malcriados com as pessoas de quem discordam.Se for cordato e educado, verá que nada disto sucede. Infinite patience brings immediate results.

        1. Pois, lá vem a léria,blá,blá,blá,a sua retórica sobre injuria e má educação,sabe a requentado.Suprema hipocrisia quando manifesta algum desconforto em relação a supostas faltas de educação.Você convive bem com elas,alem de as protagonizar bastas vezes,condescende com as que os serventuários de serviço deste blog aqui manifestam abundantemente.As “más educações” que o incomodam parece serem aquelas que provêm daqueles que não comungam das suas ideias.Paciência é uma forma menor de desespero mascarada de virtude. ( alguem disse)

  3. Caro IrritadoO José Manuel Fernandes?Assange criminoso?O Watergate nunca deveria ter existido?O mundo mudou.CumprimentosManuela Diaz-Bérrio

    1. Quem rouba é criminoso.Quem recebe material roubado, sabendo que é roubado, é criminoso.Quem vende material roubado, sabendo que é roubado, é criminoso.Quem usa material roubado, que comprou sabendo que era roubado, é criminoso.O resto é conversa de fascistas e de comunistas, interessados em destruir a nossa civilização.É improcedente, confusionista e idiota confundir a conversa do Wikileaks com jornalismo ou informação.

      1. Pois,desta feita estamos perante um crime.Mais!Um crime de lesa civilização.Quando há tempos uns pasquins violaram o segredo de justiça,estavamos perante o quê? Ter ou não ter principios.

  4. Escreveu o Irritado: «…o descrédito de uma nação cheia de defeitos mas, apesar de tudo, uma das maiores democracias do mundo, à qual devemos a liberdade propriamente dita…» Ou seja, a «liberdade propriamente dita» parece ser uma marca registada dos EUA – a nação mais HIPÓCRITA e COBARDE do planeta, cuja “libertação” consiste em bombardear e ocupar países, invariavelmente mais fracos, quando lhes apetece e sob falsos pretextos, ou colocando/financiando governos fantoches, curiosamente sempre em função dos seus interesses. Ou melhor, dos interesses de certa CANALHA que os governa, ou desgoverna, se perguntarmos a muitos dos seus próprios cidadãos, que não vão na propaganda de Hollywood.

    1. Certamente o Filipe saberá que os USA foram “colonizados” pela ralé expulsa da Europa e por criminosoa (por roubos e burlas) daqui (Europa)fugidos.Ora, roubar e burlar está no “código genético” dessa gente, embora os “iluminados” digam que isso é “iniciativa privada”.Dos USA (e abUSA) só há uma coisa que é exemplo para o mundo: a LEI. Na verdade, quando alguém (seja ele quem for) é “apanhado” nas malhas da LEI está, literalmente, “fodido” (terá de pagar o preço).”Aqui” não! Se for “forte”, ou vai à prescrição, ou o p(f)oder judicial o “inocentará”. Daí. se “aqui” houvesse verdadeira separação de poderes, NUNCA O MIGRANTE DE “UM PODER” A ELE PODERIA REGRESSAR DEPOIS DE TER OPTADO POR OUTRO PODER (melhor dito, o representante do poder judicial, depois de optar por qualquer cargo político, nunca mais poderia voltar a ser representante judicial (ou, viceeversa).

      1. Caro XXI, certamente que nem tudo nos EUA é mau: olhando para a sua História, parece antes uma grande oportunidade perdida. As fundações da democracia moderna estão lá, bem como uma Justiça a anos-luz da nossa, como apontou, e há milhões de americanos íntegros e esclarecidos, que não vão na propaganda oficial. No entanto, a maioria do seu povo é submissa e embrutecida, enquanto se julga o contrário. São carneiros arrogantes. O problema é que o país está podre do topo para baixo, e a saque há décadas pela Banca, Wall Street, e outros lobbies poderosos. Devido à moeda-padrão e à influência política e militar dos EUA, a sua coutada acaba por ser boa parte do mundo.

  5. Citou o Irritado: «Assange, na verdade, nem pensa que vivamos em democracia». A ser verdade, concordo com Assange: em Portugal, vivemos numa PARTIDOCRACIA falida, corrupta, e sustentada apenas pela canalha política e seus apparatchiks, a par de lacaios menores como o Tecelão. Esta canalha não surge apenas por acaso, dos esgotos em que se tornaram os nossos partidos: a canalha que pode chegar ao poder, é apoiada e financiada por vários lobbies, com a Banca a cabeça – não é óbvio? Até lhes dão tacho pós-política, à descarada! E Portugal está longe de ser caso isolado. Sobre a pretensa “democracia” dos EUA, basta recordar a fraude eleitoral do débil mental Bush, para nos situarmos. E a administração do “santo” Obama, correu a salvar os banqueiros, especuladores e restantes trafulhas, que causaram a suposta “crise”. Mais cita o Irritado: «[Julian Assange] promove violações de comunicações secretas (…) para tentar destruir o tipo de sociedade em que vivemos». E EM QUE sociedade vivemos? Será justa, próspera e transparente? Não há nada a mudar nesta sociedade? Nas últimas décadas, assistimos a uma REGRESSÃO, em vez de uma evolução. Compreendo que o Irritado, como conservador que é, esteja “chocado” com tanta violação de correspondência. Mas na prática, a Crappyleaks tem sido uma TRETA: tudo o que diz, era já conhecido ou suspeitado, e até está alinhado com boa parte dos interesses dos EUA. Muita gente diz que o Sr. Assange é apenas um agente da canalha americana, ou um ingénuo que faz o seu jogo. Entre isso, e a visão do Irritado, continuo sem ver qual o grande escândalo. Insisto: houvessem 100, 1000 wikileaks, mas a sério. O mundo bem precisa.

    1. O tecelão? Lacaio menor?Não, ele não está à altura de um lacaio.Para isso tinha que subir num escadote.É auxiliar de lacaio, um ser viscoso e pantanoso.Não ofenda a classe dos lacaios e lambe-botas.Os seus ícones corruptos nem lhe passam bilhete!

    2. Filipe, não olvide que 75% (ou mais) dos portugueses aceita, admite e (até) admira a corrupção (desde que lhe caia, no regaço, umas migalhas).

    3. Caro Filipe,Eis aqui um exemplo de como é bom – e até muito saudável – dissentir e debater, sem ler frases infames que descem a desprezíveis profundezas, por onde passam os canos que conduzem as fezes.Leio aquilo que o Filipe escreve e sou tomado por uma sensação de dejá vu, pois o seu argumentário não é propriamente uma novidade: com menos ou mais diferenças de pormenor, ouvi-o nos “progressistas”, cristãos e/ou não. Antes do 25 de Abril centenas de vezes, depois dessa gloriosa data, certamente milhares.Tal como em religião, o nosso sentido político, aquilo que achamos deve ser a conduta do Estado com os cidadãos que o constituem, é de tal modo apontado à perfeição e ao prumo, que nunca nada ou ninguém (o pleonasmo é intencional) corresponde a esse nosso desiderato – porque ele não passa de uma teoria, por definição impossível de pôr em prática.Para não ser muito fastidioso, vale só dizer algumas vulgaridades, como a de que os americanos são execrados pelos outros povos porque defendem os seus interesses – e não os desses povos. É certo que os usos da política mandam que se invoquem sempre lindos valores para os sustentar. Na Rússia de antanho foi a sociedade sem classes, na América é a democracia. Mas temos que convir que ainda assim os americanos se aproximaram mais do sublime ideal que propalam.Também é óbvio que as regras dessa tal democracia permitem que gente de mau porte se assenhoreie do poder e o utilize mal. Por lá houve um Kennedy ou Bush, por cá o Soares ou Sócrates.Já em tempos debatemos aqui como durante todo o séc. XX a Europa se apoiou nos USA para resolver os seus problemas intestinos e mesmo intestinais. Pagaram um enorme preço em vidas e dinheiro para impedir que a Alemanha e Rússia se apossassem do continente, obviamente antecipando que a acontecer esse cenário, mais tarde iriam deparar-se com o problema a jusante, bem mais difícil de atalhar.Ainda hoje a NATO supre, a ponto de se dizer que quase os substitui, os mirrados exércitos europeus, pois na nossa avidez de gastar dinheiro noutras coisas e poupar em custos humanos, temos alienado essa importantíssima vertente da soberania dos estados. E temo bem que ainda viveremos para nos arrependermos dessa má opção. Creio já haver falado no procedente ditame latino cuja exacção se tem fatalmente aferido ao longo dos séculos: si vis pacem para bellum, se queres a paz prepara a guerra.Não duvide que a nossa liberdade “propriamente dita” deve muito – muito mesmo – aos americanos. Como não duvide que Stalin teria avançado no final da guerra por toda a Europa até França, se apenas houvesse a exangue Inglaterra a opor-se a isso.Os americanos são parolos, novos-ricos, ingénuos, irritantes, etc. etc? Pois são, cheios de erros até à ponta dos cabelos – e creio que esse retrato ainda assim é lisonjeiro, porque conhecemos melhor o estilo de vida e idiossincrasia daqueles que vivem em Nova York, S. Francisco ou Los Angeles, porque o redneck do interior é tudo aquilo e pior no seu extremo.Mas se vivêssemos sob a influência ou jugo russo, acredite que seria mais difícil. Por alguma razão se construiu o muro de Berlim para impedir que os alemães saíssem – ou se está a construir um outro, virtual e mais sofisticado, no Texas, para impedir que os mexicanos entrem. Nem uns nem outros são parvos e nós os elucidados.Não sou (bem longe disso!) um admirador dos USA. Foram eles quem esteve por detrás de toda a guerra do Ultramar, para “libertar” os povos: Moçambique tem a honra de ser o país do mundo com mais minas anti-pessoal por habitante, título que irá ostentar por muitas décadas, com SIDA à farta para acabar com os que não se aventuram a pisar fora das estradas; Guiné é um florescente narco-estado sem grandes hipóteses de remissão num futuro próximo; em Angola campeia a miséria, excepto nas elites que negoceiam o petróleo e diamantes com os países que ajudaram à “emancipação” dessas minorias somente. O presidente Santos é só o 10º homem mais rico do mundo e valeu bem a pena para os americanos e ele, que Angola se tornasse independente, para o povo já não sei bem…(continua)

      1. (continuação)Enfim, podia estar aqui toda a noite. Sobre a Wikileaks, o futuro dirá. Mas é um facto que os jornais não publicariam uma linha, se as inconfidências fossem cometidas contra os russos ou árabes. O tal soldado-sombra teria sido sumariamente fuzilado, o tal australiano de mau aspecto teria desaparecido para nunca mais ser visto, os tais jornais que publicam as notícias teriam umas bombas à sua porta e antrax no correio, ou duvida disso?Tem toda a razão quando diz que hoje se assiste a uma regressão, uma inversão dos valores, que nos será fatal no futuro. Porque a nossa imprensa está infiltrada de “progressistas” (aí uns 70 %) a opinião pública (Churchill chamava-lhe muito justamente “opinião publicada”) acaba por ater-se ao que vê, ouve ou lê. E faz mal, porque os factos são distorcidos. Por exemplo, existem 7 milhões de israelitas, civilizados, que respeitam eleições (coisa que os muçulmanos abominam) e são pró-ocidentais. Estão rodeados de alguns 300 milhões de árabes que juram destrui-los. O ocidente europeu, cego à razão e sedento de petróleo, hostiliza-os e alinha pelos árabes. Aliás essa tem sido a causa remota e próxima dos problemas dos Estados Unidos, infinitamente maior que este lúrido e irrisório fait-divers do Wikileaks que, deduzindo do pouco que li, vem embaraçar mais os seus aliados e informadores do que os próprios, excepção feita da segurança contra o terrorismo.Quando daqui a muitos anos, o Filipe tiver a minha idade… há-de ter também a minha opinião.Um abraço amigo doManuel

        1. Caro Manuel, A questão, para mim, já não pode ser colocada em termos EUA/URSS, ou americanos/nazis, ou sequer capitalismo/comunismo. A II Guerra terminou há 65 anos, quem a viveu tem hoje 85 ou 90 anos. E o muro caiu há 20, quando nem havia Internet, e o Iraque ainda era um compincha dos EUA, devido à guerra com o Irão. Para o melhor e para o pior, as ideologias são uma coisa do passado. Encontraram-se formas melhores de explorar a malta. A Rússia é o melhor exemplo: uns largos milhões continuam a ser explorados por uns poucos mafiosos, desta vez com a sacrossanta economia de mercado como bandeira, em lugar do defunto comunismo. Têm mais liberdade agora? Têm, e aposto que acham isso fantástico, enquanto vivem na miséria de sempre. Em Portugal também passámos dum regime autoritário e “sem liberdade”, para um democrático e cheio de “liberdades”: por exemplo, a liberdade para chamarmos vigarista ao Sr. Pinto de Sousa, na rua ou num blog. O problema é que o peso dessa afirmação passou a ser nulo; o Sr. Pinto de Sousa continuará alegremente as suas vigarices, manietando a Justiça e a comunicação social a seu bel-prazer, como acontecia em muitos regimes autoritários do passado. Ou seja: os regimes dependem, em última análise, das pessoas que os representam. E as massas continuam tão imbecis e acríticas como sempre, sendo hoje manipuladas com facilidades, slogans publicitários e bens de consumo, em vez de apenas ideias bonitas. Tal como o Manuel não defende os EUA, eu não defendo o Irão, a Coreia do Norte, ou sequer o palonço do Wikileaks. Defendo sim que, mesmo sabendo de antemão que nenhum regime é ou será perfeito, a via dos segredinhos e das canalhices que os EUA tem seguido nas últimas décadas NÃO SERVE. Assim como não serve, ser apenas melhor do que o Irão ou do que a ex-URSS: é altura de perceber que o mundo mudou, e que se somos de facto superiores a esses exemplos, então temos de agir em conformidade com isso. Desconheço a idade do Manuel (se já ma disse, perdoe-me o esquecimento), como tal não lhe sei dizer o que pensarei, quando/se lá chegar. Sei que agora, com 35 anos, o grande problema que encontro no Wikileaks, é não “leakar” nada de jeito. Talvez o tempo venha a dar razão ao Manuel, que em tudo o resto me parece dispor de uma sabedoria e de um juízo admiráveis, embora nem sempre concordemos. Um abraço, Filipe

      2. Não sou (bem longe disso!) um admirador dos USA. Foram eles quem esteve por detrás de toda a guerra do Ultramar, para “libertar” os povos: QUEM ESTEVE (?!?!?!)Quem lá esteve fui eu!!!A defender o quê?

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