IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


O PREÂMBULO DA DESGRAÇA

Para que serve o preâmbulo de uma lei, seja ela qual for?

Para dizer o mínimo, a resposta é que se destina a esclarecer a intenção com que a lei é escrita, ou seja, é o primeiro recurso interpretativo para quem tiver dúvidas quanto à sua aplicação.

 

Vem isto a propósito da recente quão recorrente discussão sobre o preâmbulo da Constituição que temos, texto que, apesar de várias revisões constitucionais, se mantém inalterado desde 1976.

Qual a razão da polémica?

É simples. O tal preâmbulo é mal escrito, ambíguo e ideologicamente marcado. Atribui à Constituição a qualidade de corresponder “às aspirações do país”. Que aspirações? Generalidades sobre a democracia e a liberdade. Muito bem.

Mas não se trata de democracia e liberdade tout court. Nos termos do preâmbulo, a democracia e a liberdade servem para “abrir caminho para uma sociedade socialista”. Sociedade socialista que, “no respeito pela vontade do povo português” conseguirá “um país mais livre, mais justo e mais fraterno”.

Para além de estarmos perante uma vergonhosa pessegada lógica e ideológica, estamos também a braços com uma intolerável imposição de uma parte do povo sobre outra parte, impondo a “verdade” socialista a todos os que não acreditam nem aceitam o socialismo.

Somos livres, sim, desde que, obrigatoriamente (a Constituição é a mais alta fonte de todas as obrigações cívicas), aceitemos como bom caminhar para uma “sociedade socialista”. Ou seja, o socialismo, impingido como se se tratasse do paraíso na terra, sobrepõe-se à vontade democrática da sociedade, limitando-a na expressão dos seus desejos e aspirações e, implicitamente, considerando que não é legítimo aspirar a viver numa sociedade não socialista.

Numa palavra, segundo os conceitos que servem de base e inspiração à nossa Constituição, não somos livres.

 

Seria só ridículo, como o é boa parte da Constituição, se não fosse grave.

 

Talvez se possa entender que a Constituição sofreu os efeitos da horrível turbulência leninista dos tempos em que foi aprovada. Mas, como é evidente, nada justifica que, mais de trinta anos depois, passadas que foram várias revisões constitucionais, ainda tenhamos que nos envergonhar das abomináveis determinações do seu primitivo texto, a mais violenta das quais é a que estabelece a obrigatoriedade do caminho para o socialismo, como abominável seria que nos impusesse o caminho para outra coisa qualquer.

 

O CDS cometeu o inimaginável crime de propor a abolição do preâmbulo ou, pelo menos, a sua limpeza.

Nem pensar!

À excepção de um parlamentar do PSD (um!), toda a gente achou que não se devia mexer na repugnante coisa.

Quem quiser interpretar “autenticamente” a Constituição, terá que se ater ao “caminho para o socialismo”, e pronto.

Como afirmou uma besta qualquer do Bloco de Esquerda, os que não gostam da merdosa intenção querem substituí-la pelo “liberalismo económico”, assim “dinamitanto” a Constituição. Brilhante raciocínio: o homem vê-se ao espelho e julga que os demais são tão ordinários quanto ele.

A indigna criatura que roubou telemóveis aos jornalistas – a sua manutenção na ribalta diz tudo sobre o estado a que o PS chegou – desafia os contestatários: “Quando tiverem dois terços” retirem o preâmbulo, diz o canalha. Aí está um argumento digno de quem o produz.

Mas a mais extraordinária defesa da porcaria vem, quem diria, do ilhéu Mota Amaral, estranha personalidade com laivos de Opus Dei(!): “ainda hoje subscrevo o preâmbulo”, diz ele.

 

Este o estado em que ainda estamos.

Quando o mundo inteiro já percebeu que as soluções do futuro podem ter a ver com tudo menos com o socialismo, continuamos a patinar, atrasados, vítimas da nossa própria indigência mental.

Com 20% das pessoas a votar nos próceres da idiotia comunista.

Com um partido socialista transformado em pastagem da desonestidade e da mais ignorante e demagógica imoralidade.

Com um partido reformista que, a avaliar pelo que se passa com o preâmbulo da Constituição, nada será capaz, sequer, de tentar reformar;

Com um partido da direita que, apesar de se dizer não socialista e de não gostar do preâmbulo da nossa miséria, passa os dias a votar com a extrema-esquerda.

 

Que futuro temos se, tanto as “elites” como o povo em geral, ainda não foram capazes de perceber a origem do mal, nem o querem, simbolicamente que seja, extirpar da nossa vida?

 

16.12.10

 

António Borges de Carvalho



5 respostas a “O PREÂMBULO DA DESGRAÇA”

  1. De facto, «o mundo inteiro» – ou boa parte dele – «já percebeu que as soluções do futuro podem ter a ver com tudo menos com o socialismo»… O que o «mundo inteiro» ainda não percebeu, é qual a alternativa realmente MELHOR ao socialismo, pois a actualmente predominante, feita de “mercados” misteriosos, banqueiros, especuladores, multinacionais e offshores, que chantageiam e arruinam nações inteiras, também parece muito – DEMASIADO – longe do ideal. O fosso entre os obscenamente ricos e os miseravelmente pobres continua a aumentar, constante e imparável – isto parece não incomodar tanto o Irritado, como o preâmbulo comuna da nossa Constituição parola e ultrapassada.

    1. Depois da queda dos muros,os liberaloides,que já tinham ensaiado os primeiros passos de dança com Reagan e Thatcher,puseram os dentes de fora.Por muito menos,Hitler saltou em cima dos judeus.A história repete-se?

      1. Não entendi nada…

        1. Eu já tinha desconfiado.A sua compreensão é mais pretensiosa que entendivel.Tenha paciência,faça uma reconversão.A história que você despreza para alem dos 100 anos poderão ajudá-lo a entender certas coisas.

    2. Não embarco com o politicamente correcto com tanta facilidade como o meu caro Filipe Bastos. Os argumentos da “economia de casino”, dos malefícios do “neo-liberalismo”, etc., são o que se lê por toda a parte. São também a melhor forma de não perceber, ou não querer perceber o que se passa.Não é verdade, pelo menos ao nivel global, que os ricos estajam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. É o contrário. Os pobres estão muito menos pobres (India, China, Brasil…) e os ricos (o Ocidente em geral) cada vez mais pobres. Outros pobres, que continuam mais ou menos na mesma (a África negra, por exemplo) comem há décadas o que a generosidade dos “ricos” lhes vai dando, perdoando dívidas, mandando ajuda alimentar e medicamentosa, sendo explorados por burocracias infernais, próprias e dos outros e por líderes ultra corruptos. A produçãoo de bens “transaccionáveis” deslocou-se para leste. As economias ocidentais, ou dão um salto tecnológico sem precedentes, ou estão condenadas a estiolar ou a vender-se ao leste. Ou repensam a sustentabilidade do estado social, ou acabam com ele mesmo sem querer.Os Estados ocidentais deixaram de produzir o que necessitam, ou o que se vende a terceiros, mergulhados que estão em “serviços” e em regalias sociais insustentáveis, que vieram perverter as prioridades dos Estados. A bolha imobiliária americana começou com políticas sociais. Se a culpa é de quem vendeu casas e outros produtos “tóxicos”, é também dos que os compraram. Nos EUA, os bandidos são punidos exemplar e rapidamente. É o capitalismo, quer dizer, o estado de direito a funcionar. Por cá, é o que se sabe.Peço desculpa por este mal alinhavado arrazoado. O que me move, neste caso, é pedir às pessoas que pensem um bocadinho para além da propaganda socialista, dos bodes expiatório eleitos pelo politicamente correcto, isto é, pela esquerda, naturalmente, e por alguma gente tida por de direita.

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