A Nação tem vindo a assistir, tremendo de indignação, às notícias que dão conta dos salários oferecidos a licenciados e a outros profissionais “menores”, sendo os daqueles inferiores aos destes.
Não faltará quem pense: então andei eu a empurrar a minha filha para tirar um curso de psicologia geriátrica, e agora ou não lhe oferecem nada ou oferecem-lhe menos que à galdéria lá do bairro que é cozinheira? Então queimei eu as pestanas a tirar um curso de integração vertical de tendências publicitárias, e oferecem-me o ordenado mínimo? Então tirei um curso muito melhor que o do Pinto de Sousa ou o do Relvas, e sou posto de lado porque há um electricista que, contra mim, é preferido?
A vida, às vezes, dá terríveis lições a quem as não merece.
A demagogia “social” e “democrática” do 25 de Abril acabou com os cursos técnicos. Era preciso acabar com as “diferenças”, com as injustiças, com os abismos de oportunidades, que separavam o “povo” dos “fascistas”.
De um ponto de vista formal e politicamente correcto, as opções não estariam erradas. Mais ensino obrigatório, mais acesso ao ensino, mais alunos e… mais universidades.
O resultado, do lado bom, foi um alargamento nunca visto do número de alunos, o fim do analfabetismo, a extensão do sistema. Do lado mau, o facilitismo na formação de professores e, sobretudo, a monomania das licenciaturas.
No tempo da ditadura, de um modo geral, uma licenciatura dava acesso ao mais magnânimo e menos exigente – como ainda o é – de todos os patrões: o Estado. Os mais dos cursos acabavam por gerar técnicos públicos, fossem eles médicos, professores (com 4 anos de licenciatura e dois de “pedagógicas”, note-se), engenheiros, etc.. Era quase automático. Para a privada iam os que sobravam, os que tinham “ligações” e os bons demais, ou mais ambiciosos. Por outro lado, os cursos ditos técnicos, o comercial e os industriais, destinavam-se a preencher os lugares onde saber uma profissão era condição primeira. Acrescente-se que a nenhum diplomado num desses cursos “inferiores” ao dos liceus era negado o acesso à universidade. É o caso, por exemplo, do actual Presidente da República.
Abolidos os cursos profissionais e espalhada sobre o país uma autêntica diarreia de universidades e de cursos mais ou menos malucos, eis que uma brutal distorção se abate sobre as novas gerações. Foram convencidas da excelência de futuro que iriam buscar à universidade, de que passariam a “doutores” – coisa que acaba em Badajoz mas que a grei muito preza – sem que ninguém soubesse ao certo para que viriam a servir tais “doutores”.
O resultado está à vista. Acabado o poço sem fundo dos lugares no Estado, chegada a crise, tornado insustentável o “Estado social” – invenção do professor Marcelo Caetano, é bom não esquecer – restou o mercado com o seu realismo, talvez cruel, mas com uma autenticidade a que o “sistema” oferecido às gentes nem sequer vislumbra.
É evidente, dir-se-á, que há escolas universitárias de excelência e formados de excelência que encontram saídas cá dentro e lá fora. Mas não passam da excepção que confirma a regra.
Por isso que seja de uma naturalidade cristalina esta história “escandalosa” de haver “doutores” a ganhar menos que serralheiros ou armadores de ferro.
Como se sai disto, não me perguntem. A solução, se a houver, se alguém perceber os evidentes sinais que por aí andam e agir em conformidade, terá efeitos daqui a dez anos.
Entretanto… entretanto os novos “doutores” ou apendem a fazer alguma coisa, ou serão uma geração entregue à bicharada.
23.7.12
António Borges de Carvalho

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