Há para aí 50 anos, conheci um senhor, candidato da oposição durante a II República, ao que dizia bispo protestante, autodidata, fulano simpático que, no morro do castelo de Sezimbra me afirmou a sua absoluta certeza de que Jesus Cristo foi crucificado no Cabo Espichel. Respondi-lhe, com laivos da maior admiração, que sim, pois claro, não é? E por aí fiquei. Nunca mais me esqueci dele, nem nunca mais o vi. Lembro-me do nome, mas não vou dizê-lo.
Sempre houve o que, com a necessária dose de bonomia, se poderá chamar “visionários”. Conheci outros, alguns de alto QI (sem ironia), que veiculavam teses do género da do meu bispo, mas com pés e cabeça, com rebuscada imaginação e irrefutável lógica.
Adiante. Hoje, no jornal privado chamado “Público”, escreve um senhor um artigo de página inteira, com uma fotografia do autor e outra da bandeira da República, a defender que Portugal “nasceu” em Miranda do Douro. Qual Guimarães, qual Ourique, qual bula papal, qual tratado, nada disso. Miranda do Douro é que é bom. Mas há mais: segundo o distinto articulista, o dialecto mirandês é hoje a língua materna de 750 milhões de pessoas, a maior língua do mundo, uma vez que tanto o português como o castelhano dele derivam. É d’homem!
Notável, não acham?
Só mais duas pequenas notas, sobre dois pontos igualmente notáveis:
- O título do artigo é o seguinte: “Onde nasceu Portugal? Nasce-me em Miranda do Douro!”. É como aqueles tipos que, na televisão e nos jornais, têm expressões de profundo sentido, tais como: Eu, pessoalmente, parece-me a a mim que…
- O autor é presidente do OBEGEF e docente da FEP. No segundo caso, imagino que possa ser a Faculdade de Engenharia (ou economia) do Porto, ou da Panasqueira. No primeiro, agradeço a algum leitor que me esclareça sobre o que significa OBEGEF.
3.9.18

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