Viram, meus senhores, aquela solene reunião nos salões dos devoristas, tectos lavrados, telas de estilo (por trás da presidência, um burro!) mesa imperial, parquet “versailliano”, cadeirões de veludo? Inúmeras senhoras e senhores, altos responsáveis, ali estiveram, horas sem conta, a deliberar se haviam, ou não, de se inquirir a si próprios (faz lembrar, em versão aristocrática, os internal affairs dos polícias nos filmes americanos) sobre as investigações ao caso Freeport.
Como a classe anda de rastos, resolveram dar um ar da sua graça, pondo-a ainda mais no fundo?
Porquê?
Antes da mais, porque precisam da arranjar um bode expiatório para a sua ineficácia. Andaram anos a proteger o senhor Pinto de Sousa, abafando o caso. Quando este se tornou explosivo, vai de arranjar desculpas. Como as desculpas não funcionam, mas é preciso continuar a proteger o senhor Pinto de Sousa, faz-se um inquérito aos inquiridores, com o objectivo (brada aos céus!) de descobrir se houve manipulação política da coisa.
Recapitulemos em poucas palavras:
– Aqui há uns anos, uma carta anónima cujo autor toda a gente sabe quem é revelou uma investigação policial em curso sobre o licenciamento do Freeport;
– Em concertada manobra política, as forças socialistas montaram uma urdidura de tal ordem que a verdade foi transformada em conspiração política;
– Consequência desta manobra, o polícia que, alegadamente, teria deitado a verdade cá para fora foi preso, os que a puseram no jornal foram insultados, os “culpados” políticos enxovalhados, o dito jornal, pouco depois, fechou, e o senhor Pinto de Sousa triunfou;
– Quase quatro anos passaram. Nunca mais se ouviu falar no assunto;
– De repente, salta cá para fora que os ingleses andavam atrás de uns dinheiros que desapareceram de uma empresa, ao que lhes parece para pagar luvas a uns portugueses, entre os quais o senhor Pinto de Sousa;
– A imprensa desatou aos coices, descobriu coisas inacreditáveis, a família do senhor Pinto de Sousa desbroncou-se, uma bola de neve começou a girar;
– Perante isto, que fez o senhor Pinto de Sousa? Não, não veio à televisão dizer que as suas contas bancárias estavam à disposição da Justiça, que nada tinha a esconder, etc. Não. O senhor Pinto de Sousa fabricou uma teoria da conspiração, inventou forças ocultas e poderes negros, a fazer inveja aos protocolos dos sábios do Sião, como se a Scotland Yard, ou o Serious Fraud Office fossem ersatze da PIDE ou lojas de magia negra. Tudo a confirmar o que já há muito se sabe: o senhor Pinto de Sousa e o PS têm por base ideológica a convicção de que os portugueses são, regra geral, parvos, ou que devem ser tratados como tal;
– A trupe do costume (Freitas do Amaral, Vitalino & Vital, Silva Pereira, Santos Silva…) acompanhou o chefe na esotérica cortina de fumo, repetindo e exponenciando dislates e alegações cabalísticas.
– Por seu lado, a cúbica estupidez, e não só, dos costumeiros barões do PSD (Meneses, Marcelo, Sarmento, Coelho…) tratou, e trata, de desviar as atenções para alegados handicaps do seu próprio partido…
No meio disto tudo, o respeitável Ministério Público, em vez de fazer aquilo para que é pago, dedica-se, com a maior das solenidades e ao mais alto nível, a investigar-se a si próprio, não para acelerar as investigações ou para saber porque não aceleram, mas para investigar a tenebrosa suspeita de que haja motivações políticas na acção dos seus agentes.
Quem está, afinal, a fazer política? Os ingleses? Os jornais? Os “poderes ocultos” que querem dar cabo do primeiro-ministro?
Ou o Ministério Público que parece querer safá-lo, mesmo à custa do seu próprio prestígio, se é que lhe resta algum?
11.2.09
António Borges de Carvalho

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