O coração do IRRITADO sangra de caridade insatisfeita por causa dos funcionários parlamentares que, coitadinhos, estão a ver os seus legítimos interesses ofendidos.
Os ditos senhores, sendo funcionários públicos, tinham, desde Maio passado, um estatuto que lhes garantia auferir mais 60% que os demais da mesma categoria, diga-se que a troco das horas a mais que farão para poder seguir os trabalhos parlamentares. Este privilégio vem de sempre (1976), não sei se com a mesma expressão. Seguindo esta lógica, deveriam os vencimentos ser reduzidos durante os períodos em que a AR não está a funcionar ou funciona a meio gás. Não é?
Acresciam várias outras justas medidas. Por exemplo, os funcionários do parlamento jamais podiam ser contratados a prazo. Quem entrasse, entrava para sempre! O vínculo assim estabelecido, é certo, podia vir a ser alterado. Mas, atenção! Tal só poderia acontecer com o acordo do “atingido”. Por interesse do “patrão”, jamais! O mesmo se passava com a chamada “mobilidade”, isto é, um funcionário só podia ser transferido desde que estivesse de acordo com a transferência. Nada de brincadeiras.
Ora parece que o governo quer abolir o tal, e tão justo, estatuto, que nem seis meses de vida tem! Ocorreria perguntar como é que os funcionários funcionaram durante os restantes trinta e tal anos! Em regime de escravatura?
O caso é de tal ordem que os rapazes descobriram que o tal estatuto era uma forma, possivelmente mágica, de tornar o parlamento “independente dos governos”. Quer dizer que, nos últimos trinta e tal anos, o governo deve ter sido uma espécie de assembleia da II República. E mais: sem estatuto, dizem eles, o parlamento deixa de ter “autonomia”! E os milhões do orçamento, não lhe dão autonomia? São os funcionários que a proporcionam?
Estúpidas perguntas, as do IRRITADO. É que os atingidos por mais esta vilania do governo, são “o baluarte” da Assembleia! Cuidado! Sem este precioso “baluarte”, desmorona-se a democracia!
Acresce que o pessoal tem um sindicato próprio, o qual, para defender a “independência”, não é filiado em nenhuma central. Sem prejuízo de ter aderido a uma greves geral da CGTPIN, é claro, mas, atenção, deixando a cada um o direito de alinhar ou não.
E a besta do IRRITADO que julgava que qualquer um era livre de aderir ou não às greves, a todas e quaisquer greves! O conceito do sindicato parlamentar é outro: isso de direitos individuais só se autorizado pelos sindicatos!
Posto isto, é com integral apoio que o IRRITADO saúda a iniciativa da greve de protesto que os impolutos funcionários se preparam para levar a efeito.
Muito bem!
24.10.11
António Borges de Carvalho

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