Vejam isto: “eu parece-me a mim”
Esta expressão, introdutória de douto sentenciar, foi ontem proferida, na televisão, pelo senhor Marcelino, mui ilustre director do Diário de Notícias.
Estamos habituados a bojardas deste tipo, “pessoalmente parece-me”, “parece-me a mim”, “eu parece-me”, são mimos todos os dias repetidos por inúmeras personalidades, todas elas “influentes” na nossa praça e na nossa forma de falar.
No caso em apreço, o homem só se esqueceu do “pessoalmente”, o que enriqueceria a quantidade de pleonasmos. Paciência. A frase não ficou “completa”. Mas as calinadas lá ficaram, imagem clara da literacia desta malta. O gritante pleonasmo é evidente, não carece de demonstração. Pior é o sujeito. O sujeito de “parece-me” é indeterminado, jamais poderá ser “eu”. Poderia era ser “ele”, coisa desnecessária mas correcta: “ele parece-me”. Ou então, “parece-me”, simples, escorreito e certo. Neste caso, o “eu”, além de monumental pontapé na gramática, parece ser uma expressão pleonástica ou, por certo, enfática na opinião do falante.
Mas este blog é mais político que gramático. Por isso realça também uma aterrorizante opinião do senhor Marcelino, opinião que já vem fazendo escola na politicamente correcta “bempensância” nacional.
Diz ele que está mais ou menos garantido que o PS só “aprovará” um programa cautelar se, em troca, lhe derem eleições antecipadas. A ser isto verdade, e parece que é, ao PS o país não interessa, o programa cautelar pode ser bom ou mau, pode ajudar ou não na resolver o problema para os tempos mais próximos, pode ou não ser indispensável, que nada disto interessa ao oco e à sua maralha. O que interessa é o poder tout court, ainda que ninguém ainda tenha percebido, porque não há nada para perceber, o que quer fazer com ele, para além do glorioso momento em que se sentar no cavalinho. Não há um único “erro”, uma única “má política” deste governo ou da troica que possa justificar que o PS impeça o regresso aos mercados, o alívio da austeridade, a confiança externa, etc., a troco, simplesmente, do poder. O exemplo de Jorge Sampaio, que não hesitou em ferrar um golpe de Estado para pôr os seus no poleiro, o oco está-se nas tintas para tudo o que não seja amarinhar. Em bom português, chama-se a isto traição, traição aos cidadãos, ao regime, à fraca hipótese de salvação que ainda nos resta.
É claro que o senhor Marcelino acha a coisa inteiramente normal, fala nela sem uma crítica, uma observação, uma cautela.
Com “formadores de opinião” desta natureza, estamos fritos.
31.10.13
António Borges de Carvalho

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