Na sua viagem à Madeira, dona Gomes deu largas à sua veia policial, tão talentosa como a da Inquisição, da Stassi, ou de outras instituições análogas. É verdade, diga-se, que a dona Gomes não tem à disposição os elementos persecutórios daquelas organizações. Mas tem outros esquemas que, em termos de opinão pública, são até mais eficazes: uma imprensa sedenta de “bocas”, uma televisão às ordens, uma chusma de adeptos à qual não faltam gatunos informáticos e polícias de aviário tão mediaticamente crentes e servis quanto os esbirros de outrora. Basta umas suspeitinhas da dona Gomes para desencadear páginas e páginas de “informação”. Faz lembrar o senhor Trump e as suas denúncias de fraudes eleitorais que até os seus adeptos sabem falsas mas actuam como se acreditassem. Por cá, para além de alguns já perseguidos pela Justiça (não por causa da dona Gomes), não se nota nada para além de afirmações tão ferozes quanto bem-vindas pelas mesmas almas que dão ouvidos às diatribes do Ventura. Em matéria de populismo persecutório, no entanto, o Ventura é uma criança se comparado com a dona Gomes.
Coitada, queixa-se do seu “colega” candidato Rebelo de Sousa, porque ainda não se anunciou como tal e, por isso, “foge ao debate”. Olha quem. Esquece que o adversário, quando se candidatou da outra vez, abandonou a sua tribuna televisiva para entrar na campanha. Ela, pelo contrário, declarou-se candidata e continuou a suas arengas na televisão, o que, aqui para nós, deve dar umas massas, acrescidas da borla da propaganda eleitoral. E, como está na Madeira, acusou a zona franca local dos mais nefandos crimes, o que deve ser muito inteligente, sobretudo para quem lá trabalha, recebendo salários que pagam impostos, os quais somam aos 100 milhões que a coisa rende à região. Esta é genial, tão genial como a vacina da gripe vinda de gálicas paragens.
Diz ela, mais uma vez em puro estilo trumpista, “ não é aceitável que as autoridades deem dados falsificados, vergonhosos, num esquema que serve a criminalidade organizada associada (a quem?) que é de todo o tipo, desde crime de tráfico de droga, armas e humano”, servindo de veículo para criminalidade financeira e fiscal internacional”. É de esperar que a trumpítica senhora apresente as queixas à polícia acompanhadas das competentes provas. A não ser que, como o seu modelo americano, não precise de provas para nada. Já “desencadeou”, diz, uma investigação da Comissão Europeia que, “ontem, levou a conclusões bastante duras para Portugal”. Enquanto aguardamos o resultado de tais conclusões, hemos de agradecer mais este brilhante serviço prestado à Pátria e à região da Madeira pela dona Gomes.
7.12.20

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