O cartoonista Augusto Cid costumava caricaturar o Dr. Balsemão pintando-o sem olhos, nariz e boca. Não sei ao certo qual seria a insistente mensagem. Elogio não era.
O IRRITADO avança uma hipótese imaginativa, talvez só bene trovata. Cid referia-se ao “Expresso”, em particular, e à imprensa pluralista em geral, a imprensa sem cara, a que tantas vezes tenho dedicado umas palavrinhas e de que o “Expresso” é paradigmático exemplo: uma no cravo outra na ferradura, recados e mais recados, encomendas e mais encomendas, quase submergindo os poucos que, nele escrevendo, ainda vão tendo cara.
Este Sábado, porém, ao contrário do costume, o “Expresso” tem cara: a do senhor Pinto de Sousa, dito engenheiro Sócrates. Carinhosos retratos na primeira página, mais uma mão cheia deles em páginas e páginas, o fulano na prisão, cela de 12 metros quadrados (nada mau!), televisão, passeios no pátio, intelectualíssimas leituras, veia de escritor a fazer inveja ao Balzac, uma incontável e subliminar(?) louvaminha, um nunca acabar de propaganda.
Por seu lado, a ideóloga de serviço permanente publica uma tresloucada diatribe sobre a ausência de obras públicas, a falta que nos faz o TGV, mais o aeroporto do jamais, a desgraça que é não haver metropolitano para o “bairro histórico” das Amoreiras(!), o estado da linha de Cascais, o alfa pendular a levar três horas do Porto a Lisboa, o incómodo dos autocarros da Carris, tudo a precisar de “investimento”, um país e uma cidade pelas ruas da amargura, a Avenida da Liberdade a precisar de bicicletas, eléctricos rápidos na Calçada do Combro, a necessidade imperiosa de progresso “sustentável”, uma interminável série de medidas urgentes. Só um investimento público a sério serviria para atalhar as múltiplas desgraças em que estamos envolvidos.
Não sei se alguma das pessoas que fazem o favor de me ler terá, uma vez que fosse, visto a dona Clara F. Alves no metropolitano ou nos autocarros da Carris. É provável que a tenham visto num dos intermináveis corredores da Portela – que tanto critica – sem que, ó injustiça, lhe tenham posto à disposição um caddy e uma carripana para a transportar, como é devido a tão alta personalidade.
Mas sei onde foi ela buscar inspiração para a furibunda diatribe com que brindou a populaça: à inegável obra desse luminar do progresso, Pinto de Sousa, conhecido por engenheiro Sócrates.
Ou seja, para os irritados da nossa praça que acham que o “Expresso” não tem cara, o dito resolveu dizer que a tem: é a cara do tal engenheiro e da sua inigualável e indispensável qualidade política e humana.
Alguém me diz, aqui ao lado, que não me preocupe: na semana que vem, o “Expresso” terá outra cara qualquer. Duvido. Mas espero que a desta semana tenha o efeito perverso que merece.
1.6.15

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