Ouvi dizer que Sua Excelência o Presidente da III República, aqui maldosa e abusivamente conhecido por chairman da geringonça, apelou ao voto dos portugueses (em linguagem correcta dir-se-ia “dos portugueses, das portuguesas e dos/as/es LGBTGTXPLOCS++”) nas eleições autárquicas.
A impenitência herege e iconoclasta que pratico nestas páginas levou-me a pensar em não ir. O apelo do senhor, como tudo o que diz e faz, traz água no bico. Desconfiei: se ele manda ir, não vou. A coisa tem a sua irrefutável lógica.
Mas a minha alta consciência cívica – ou outra coisa qualquer, talvez um hábito inveterado, uma rotina de décadas – foi mais forte. Votei, e logo de manhã! Muito contente, voltei a penates a fim de dar parte ao mundo da minha corajosa decisão.
Pensando a realidade, há uma coisa muito mais importante que as eleições neste belo dia de serôdio Verão. O que, no fundo, preocupa os/as portugueses/as (…etc.) é o joguinho da bola entre o Porto e o Sporting. A malta, na bicha para os votos, estava distraída com tal e tão vital questão, o que, no douto parecer da CNE, pode prejudicar, e até infirmar, o resultado final do importantíssimo acto. Toda a razão. Os portistas, em vez de votar esclarecidos, estão a pensar no guru Pinto da Costa, os sportinguistas no tão delicado Bruno, os benfiquistas no Deus queira que empatem, assim perturbando a expressão correcta da vontade eleitoral de cada um.
Posto este senão, tudo vai correr com a maior normalidade, como é timbre de democracias adultas, caso da III República, não é? À noite, teremos as eleições a perturbar a academia da bola, os professores doutores do pontapé serão prejudicados nas suas “análises” pelos colegas do comentário político, em sã competição por audiências televiso-intelectuais. Vai ser uma noite em cheio. Quem ganhará, os professores da bola ou os académicos das bocas? Eis a questão.
1.10.17

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