IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


DOS VALORES DA DELAÇÃO

 

Em tempos que já lá vão, um delator era um delator, também conhecido por bufo e por outras pejorativas designações. Era o colaborador ideal das polícias políticas, dos espiões industriais e sociais,  a “testemunha secreta” dos jornalistas baratos e de gente dessa igualha. Provocavam o merecido desprezo por parte das pessoas normais e também da justiça, salvo casos de carácter pidesco. Era uma “profissão” discreta, escondida de todos os que não fossem mais próximos capangas dos seus clientes.

Os bufos de hoje são mais sofisticados, sabem de informática e, em vez de andar a ouvir conversas no café ou atrás das portas, em vez de penetrar nos escritórios ou casas de cada um, entram na correspondência alheia sem cuidar de quaisquer direitos, penetram em contas bancárias sem mandato, alimentam a intrigalhada política e mais o que lhes der na gana. Ganham a vida com isso e têm os favores da opinião pública, hoje educada para o imediatismo do ódio e para os julgamentos sem intervenção policial e sem legitimidade investigatória ou judicial.

O Estado de Direito, o Primado da Lei, foram para o caixote do lixo, ou foi a sociedade que adoptou fundamentos “morais” que não constam de nenhuma declaração de direitos? Ou uma mistura dos dois? Quem souber que o diga.

Os maiores bufos deste mundo são incensados, elogiados, postos nos altares do ódio e, se perseguidos pela Lei, são  perdoados, amnistiados, desculpados. Os poderes públicos, quando lhes convém, cooperam activamente com a sociedade. Há até penetrações em segredos militares internos de um país que deixaram de ser levados à conta de traição ou de espionagem. Sobre um tal Pinto, espião informático por conta própria que, perseguido pelo que resta das autoridades portuguesas, se diverte a dizer do seu país o que mafoma não diz do porco, a nossa opinião pública, tão afoita a condenar o que lhe vier à mão, nada opina, ou até aprova. Um alarve do mais radical, um pide de alma e coração, um ladrão de correspondência privada sem mandato outro que não seja o do próprio, não merece críticas sociais ou condenações dos nossos opiniosos e exigentes comunicadores. O senhor Pinto pode caluniar ou acusar quem muito bem lhe apetecer sem que ninguém ponha a nu a ignomínia da sua vida nem ponha em causa as suas acusações ou meio que utiliza.        

Pois é. Vão dizer que vivo no século passado, que os meus valores caíram em desuso, que sou um velho do Restelo que não acredita nas descobertas do senhor Pinto. Não têm razão. Não vivo no século passado. Para ser verdadeitamente moderno vivo vários séculos mais atrás, quando bastava um sopro de denúncia para um tipo ir parar à fogueira. É, mutatis mutandis, o que a nova moral estabelece, com o incondicional apoio da forças “progressitas” e dos ódios primários que animam a vilanagem.

 

10.3.19



5 respostas a “DOS VALORES DA DELAÇÃO”

  1. Diria que sim, que o Irritado vive no século passado. É verdade. Ficou praí nos anos 70/80, quando ainda havia ideologias e segredinhos que era ainda possível controlar. Havia ainda certa ingenuidade sobre a função desses segredos, supostamente mantidos por governos ‘bons’ para nos defender dos governos ‘maus’. E ainda se falava em Estado de Direito sem desatar à gargalhada, e havia ainda certo contrato social. A desigualdade não era tão funda, o roubo não tão era tão descarado, as pessoas não eram tão cínicas. A informação era controlada por gatekeepers em que a maioria ainda confiava. O conceito de delator ecoava ainda aos odiosos bufos das ditaduras. O que mudou? Acima de tudo o resto, a internet. A internet veio acabar com esse mundo. Pense assim. A minha mãe tem quase 70 anos; não entende nada de tecnologia; nunca ligou a política. Há algum tempo, dei-lhe um portátil para se entreter e falar no Skype. Hoje veio cá a casa. Deu-me uma prelecção sobre o Costa e a Maçonaria e o Opus Dei e o Trump e a conspiração de esquerda e a desinformação governamental e os hackers e os media. Anda horas por dia no Facebook, Twitter, jornais, blogs, etc. Os ingleses têm uma expressão, ‘you can’t put the genie back in the bottle’. Não há volta atrás. As pessoas não estão mais inteligentes, nem conscientes, nem sequer mais informadas, mas crêem que estão. E não voltam a confiar no seu mundo.

  2. Toda a gente vê que todos os governos mentem, e não pelos motivos que apregoam; que os bons às vezes são os maus e vice-versa; que a informação é filtrada ou deturpada ao gosto de quem a controla; que os donos da verdade, sejam jornalistas ou ideólogos ou CEOs ou juízes, podem ser tão aldrabões quanto o pior trafulha, e frequentemente são-no. A privacidade nunca foi realmente sagrada; só a dos governos, a dos mamões, a dos guardiões do sistema. A da arraia-miúda sempre esteve ao dispor deles. Pois agora a deles também está ao dispor; pelo menos mais do que antes. Esta era traz perigos, claro: somos carneirinhos muito dados a histerias e linchamentos. Se alguém diz mata, um milhão diz logo esfola. O pensamento crítico e independente, a única verdadeira individualidade, continua tão raro como sempre. Mas o génio não volta para a garrafa. E de certa forma, Irritado, ainda bem. É preciso continuar. Até acabar com o último segredinho do último mamão. Um pesadelo para si, bem sei.

    1. Percebo a suas bem informadas opiniões. Aceito-as, por sinceras. Quando o Big Brother lhe bater à porta, lembre-se do IRRITADO.

  3. “Sobre um tal pinto…”: “Ladrão que rouba a ladrão tem 100 anos de perdão. “

    1. Daí o “perdão” do tal Pinto no “pito dourado”?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *