Aqui há tempos, soía dizer-se que a Comissão de trabalhadores da Auto Europa era mais civilizada do que é costume em organizações do estilo.
Controlada que é pelo Bloco de Esquerda, inspirada nas tiradas intelectuais e para-religiosas do camarada Louça, a tal comissão parecia ter percebido o que se passava no mundo e na fábrica, e ter alguma dose de clarividência, ou seja, estar imune à habitual paranóia dos discípulos do camarada Carvalho da Silva, os quais, coitados, estão tão fora do tempo como o chefe.
Mas… assim que um abanão maior os sacode, os tipos reagem com cabeça de front populaire e põem-se a fazer fosquinhas.
Se calhar não percebem que o que está em jogo é tudo, para eles e para mais umas seis mil pessoas. Ou então alguma inspiração bolchevista lhes disse que o ideal é ir para o desemprego com uma indemnização. Alguém há-de pagar.
Não há um só analista, uma só instituição internacional que não diagnostique os problemas endémicos que provocam a situação do nosso mundo do trabalho. Serão todos, ou burros, ou lacaios do capitalismo? É o que pensam os bolchevistas.
Por cá, a filosofia continua a ser a da estagnação laboral, do encosto, do não me toques que me desafino. Assim se criou um Portugal a três velocidades, a dos que têm emprego para a vida, façam o que fizerem, a dos que até gostavam de fazer alguma coisa e não têm nada que fazer e a dos que, simplesmente, não querem fazer nenhum e são o objecto principal das atenções do Estado.
Os tipos da Auto Europa preparam, calma e dignamente, a cama onde se vão deitar. Se não ganharem juízo, arrastarão consigo uma data de gente que não tem culpas nenhumas no cartório.
Para os silvas e os louças, que interessa isso?
Nada. Desde que os “princípios” da “luta” não sejam tocados, para que possam continuar a destruir, em vez de reformar, o que resta do tecido laboral e social do país.
29.5.09
António Borges de Carvalho

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