-Arranjaste a bonita, ó Fernando!
– Eh pá, estes gajos não me largam, já não sei o que hei-de dizer.
– Pois, pá, É verdade mas, vendo bem as coisas, fizeste bem. Baralhaste, tornaste a dar, e de tal maneira que já ninguém percebe nada. É o que é preciso. Os indígenas, tirando meia dúzia de destribalizados, acabam por achar que até és capaz de ter razão!
– E não tenho?
– Não, pá, não tens razão nenhuma, meteste o pé na argola, tu e os teus ajudantes, mas sossega que isto passa.
– Achas, António?
– Claro que acho. A tribo é vasta, como dizem as sondagens, já não há problema nenhum, ao fim de tantos anos a comer o que lhes damos que já estão calhados, quer dizer, estão na calha, nos varais, pá! Os chatos do costume acabam a falar sozinhos, é canja.
– Não sei pá, isto está a ser demais. Já não sei o que dizer.
– Pois, o que é que tu querias? É difícil fazer mais asneiras que as que tens andado a fazer, mas cá estamos, sempre ao teu lado. Já devias ter aprendido com o tempo. O Rio é um nabo, os dele, ou prestam e estão calados, ou não prestam e são os que falam, ‘tás a ver? Daqui a meia dúzia de dias o assunto morre como já morreram tantos.
– Sim, pois, mas querem que me demita…
– Já devias saber que cá na casa ninguém se demite, a não ser que o nosso amigo de Belém resolva tirar o rabinho do selim como fez com a camarada dos icêndios… mas, desta vez, está caladinho como compete… não há problema.
– E os outros, o das Necessidades e o da polícia?
– Queridos camaradas, excelentes governantes. Não te preocupes, aprende com eles. Um disse que nunca tinha recebido os mails, o outro diz que recebeu mas que não tinha nada a ver com o assunto. Uns artistas do melhor, meu tapaz, segue-lhes o exemplo e vais ver que não te acontece mal nenhum.
– Não sei… enfim, não é, tenho a consciência…
– Qual consciência nem meia consciência. Isso de consciência não tem nada ver com o assunto. O que tem a ver com o assunto é a nossa… resiliência ou lá o que é, como se diz agora, tás a ver, resiliência!
– Pois, acho que me vou aguentar.
– Isso é que é falar. E mais, já viste como as coisas mudam? Hoje mesmo, a história dos russos já foi substituída pelo arraial dos liberais. As televisões, os jornais, a maralha, quase toda nossa, já está a esquecer, agora o arraial do IL é que está a dar. ‘Tás safo, Fernandinho, ‘tás safo. O teu assunto passou à história, daqui a uns dias já ninguém se lembra. Ficam à espera das tuas investigações que, ou não dão nada, ou servem para admoestar algum ignorado funcionário da secretaria. ‘tás safo, meu rapaz. Viva socialismo!
– Obrigado, António, és o máximo!
– Eu sei, eu sei… beijinhos.
14.6.21

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