Um tipo partiu um vidro lá de casa, abriu a janela, entrou e roubou-me o portátil.
Gaita!
A GNR, como é de timbre, foi ao local do crime em grande estilo. Uma tarde perdida, uns papéis, uns escrevinhadores, uns investigadores, uns técnicos da polícia “científica”, etc. Muito obrigado. Provavelmente, se ainda for vivo daqui a dez anos, receberei uma simpática cartinha a dizer que o assunto foi arquivado.
Por mor destas infelizes circunstâncias, tive que esperar quase uma semana para, de volta a Lisboa, me encontrar outra vez com o Irritado. E houve tanta coisa a passar-se e a merecer irritações!
Os ciganos e os pretos desataram à porrada, porque a sociedade – nós, os culpados – os fez vizinhos.
A Casa dos Bicos foi entregue, com a pompa da ordem, ao camarada Saramago, sem dúvida merecedor do usufruto desta jóia arquitectónica que a História e o Império nos deixaram e que, dentro em pouco, terá as paredes cobertas de retratos a cores do Che, do Cunhal e de outros democratas da mais fina cepa. Para além do camarada Saramago, o propriamente dito, outro que tal.
Os garotos do PS opinam que o maior problema da Nação é o “casamento” dos pederastas e associados, sem que às rascas cabecitas ocorra nenhum outro assunto que mereça perdas de tempo. O Sapateiro mandou, lá das castelas, um paneleiro (rima e é verdade!), de seu nome Zarolho ou coisa parecida, para, nobremente, teorizar sobre as suas experiência a tardoz e, assim, apoiar mais esta causa do socialismo larilo-juvenil. O senhor Pinto de Sousa achou e acha tudo muito bem.
O Benfica, o Sporting e o Fê Cê Pê empataram com vários mijarucos.
Uma injustiça sem nome, isto de o Irritado, perante tão importantes acontecimentos, ter sido privado de meios de comunicação. Assim que sair outra vez de Lisboa, voltará a calar-se. É que isto de comprar um portátil novo não é coisa simples nem barata.
Fui à FNAC. Após meia hora a olhar que nem boi para palácio para as máquinas em exposição, incapaz de decidir, pedi a um senhor que me ajudasse.
– Vá ali para o meu balcão e espere!
Obediente, lá fui. Passado um quarto de hora, desisti da espera e agarrei um tipo de bigode por um braço.
– Ajude-me, por favor…
Caridosamente, o bigodes ajudou-me. Dez minutos depois, tinha tomado uma decisão! Esperei mais um quarto de hora, enquanto o meu ajudante fazia vários telefonemas e preenchia com afã uns formulários. Depois, a mando do tipo, dirigi-me dignamente a um novo balcão. Orgulhoso, levava na mão, qual Camões de manuscrito em punho, um papelucho e uma caixa de plástico com o Windows Vista. A senhora do novo balcão olhou para mim, para o papel, para a caixa, e disse:
– O meu colega que trata disso já vem.
E ali fiquei à espera do colega que trata disso já vem.
Mas não veio. Dez minutos passados a adrenalina começou a apoquentar-me a alma. Vinha em ondas, primeiro de impaciência, depois de fúria. Com um esforço supremo, dirigi-me a um gordo que arrumava gadgets numas prateleiras. Também não era ele quem tratava do assunto.
Cioso da minha integridade física, bem como da do gordo, encostei-me ao balcão e, com muito carinho, depositei nele o papel e a caixa.
Então, sempre a olhar para trás a ver se não vinha ninguém no meu encalço, saí pela porta fora. Vão àquela parte!
Moral da história, continuo sem computador, lá, onde o Irritado costuma estar no Verão.
Paciência.
António Borges de Carvalho

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