Já não estando por dentro da evolução das coisas do imobiliário, é-me dado presumir, com boa base, que o metro quadrado na zona nobre da baixa, em aluguer para comércio, ultrapassa os 25 euros/mês.
Acontece, segundo os jornais, que há um prédio, no Rossio, com nada menos de 1.260m2, cujo inquilino paga, não os 31.500 euros por mês da minha “cotação”, mas 611, cerca de 48 cêntimos por m2, 52 vezes menos que o preço de mercado.
Espantoso? Nem por isso. É o que, no estrito respeito pela legalidade republicana que o 5 de Outubro instituiu, que a II República consagrou e que a III República carinhosamente conserva, se justifica e é permitido.
Acresce que o inquilino, sem dar cavaco à senhoria mas com o extremoso apoio da Câmara, fez obras de recuperação do locado.
A proprietária do edifício em causa resolveu achar que a situação era injusta e resolveu protestar. O Presidente da Câmara de Lisboa apressou-se a defender a legalidade chamando, delicadamente, “parasita” à dita senhora.
Em resumo, pelo menos nos privilegiados cérebros do Costa, do Fernandes e da Roseta, o inquilino é um herói e a proprietária uma besta, uma “parasita”. Só falta exigir à senhora que pague as obras do inquilino.
Aquelas magníficas criaturas acham, com a certeza e a razão que a lei republicana lhes confere, que a dona do imóvel deveria, com os 611 euros que recebe por mês, ter gasto para aí um milhão a reabilitar o que é seu. Não o tendo feito, não passa de uma parasita, uma espécie de piolho na cabeça da CML. Piolho que, no estrito respeito pela moral republicana, deveria ser objecto de uma desparatização química ou, quem sabe, de um auto de fé.
O inquilino, esse, continuará, com o apoio da CML, a desenvolver o negócio que lá explora há não sei quantos anos, negócio obviamente rentável, sobretudo por não ter custos de instalação.
O que, aliás, se passa com a maioria dos negócios da Baixa, e não só.
Se isto é justiça, se isto é defender os interesses da cidade, se isto tem seja o que for a ver com progresso, modernidade, equidade, etc., vou ali e já venho.
E pure si muove…
8.10.10
António Borges de Carvalho

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