Segundo o douto parecer da dona Ana Gomes – ínclita figura da nossa diplomacia, desagradável investigadora do PE, frequente comunicadora televisiva, senhora afirmativa e desapiedada – um tal Pinto, hacker consumado e muito conceituado na facho-democracia magiar, ao penetrar na correspondência, e não só, de terceiros, não lhe dá direito ao título de denunciador, ou bufo, ou queixinhas, muito menos de usurpador ou de ladrão. Pelo contrário, dona Ana chama-lhe “lançador de alertas”, e classifica, entusiasmada, as suas actividades como nobres, necessárias, louváveis, merecedoras de encómios vários, comparável, aliás, com outros heróis, tais o senhor Snowden, aquele sargento que agora é sargenta, o refugiado na embaixada de um país dado ao comércio de estupefacientes, o tipo da uiquiliques e , cereja no bolo, sindicatos de jornais muito preocupados com a moral pública e com as vendas.
Isto coloca algumas dúvidas, sobre as quais já não é a primeira que o IRRITADO se pronuncia. O princípio geral do sigilo da correspondência passou a coisa velha, relha e fedorenta. Em tempos, quem quisesse abrir a correspondência de outrem munia-se de uma panela a deitar vapor de água para derreter a cola, uma faquinha fina e um discreto tubo de outra cola para restaurar o envelope. Por mais nobre que fosse o objectivo de quem o fizesse, podia ser preso por isso, e jamais o acto podia ser invocado como prova fosse do fosse. A não ser, claro, que fosse objecto de mandado judicial. Hoje, é o contrário. Mandam os milhões as anas gomes deste mundo, ferozmante acompanhadas pela imprensa “de referência”, que tais actos sejam tidos por morais, incensados pela opinão, amados por governos e ONG’s, lambidos por alcoviteiros, usados em juízo, esgrimidos por comentadores e por políticos de vários credos, ao mesmo tempo que as mesmas gentes e as mais diversas autoridades lançam campanhas para a defesa da privacidade, a protecção de dados pessoais e outras vertentes da vidinha de cada um.
A bota está longe da perdigota. Os fins passaram a justificar os meios, desde que tal convenha à “opinião correcta”.
É certo que não poucos merecedores de crítica, de alarme social e até de graves penas, têm sido apanhados por obra e graça dos hackers. O que, por um lado é sinal de incompetência de polícias e afins, por outro da “evolução” da moral pública. Admitir-se-ia que as autoridades judiciais, perante indícios, suspendessem o sigilo e contratassem especialistas para se intrometer na correspondência de terceiros. Desde que, é claro, hackers não mandatados, fossem perseguidos e condenados. Mas a moral dos tempos é outra. Bufos, denunciantes anónimos – portanto irresponsáveis – tudo minha gente serve para invadir o que se diz defender, a privacidade, os dados, o que lhes der na realíssima gana.
O mundo é outro, a tão apregoada “ética” não existe, os “bons”, mesmo que bandidos e ladrões, são livres para sujar os “maus”, desde que tenham lama que chegue. Colaboradores e adeptos do big brother há por aí aos pontapés, só lhes faltando um monumento, tipo Arco da Rua Augusta: Virtutibus hackerem ut sit omnibus documento.
28.1.19

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