Como é do conhecimento generalizado, um tal senhor Krugman tem sido, ao longo dos últimos tempos, uma espécie de guru pró-esquerda, antiliberal, feroz crítico de troicas & Cª, etc.
Muito bem. Está no seu direito, é intelectualmente respeitável, quer se siga quer não as suas opiniões, as quais está longe do IRRITADO atrever-se a discutir.
Há um mês ou dois houve, cá no sítio, umas universidades do Estado que resolveram distinguir o tal senhor com doutoramentos honoris causa. Doutoramentos por grosso e atacado, a revelar o respeito universitário português por tão insigne personalidade. Ou não?
Vejamos.
O homem veio, recebeu as becas, os bonés, as medalhas e demais parafernália das mui respeitáveis instituições, guardiões ilustres do saber pátrio. Houve discursos laudatórios, artigos nos jornais, transcrições, barulheira. Muito bem. Aceite-se sem comentários que o homem merecia tais e tão importantes homenagens.
A culminar a sua estadia entre nós, o Primeiro-Ministro recebeu o Doutor propriamente dito e teve com ele uma conversa que se estima útil para ambas as partes. Tanto que, publicamente, o senhor Krugman veio tecer algumas considerações elogiosas sobre o nosso político, o mesmo tendo sido feito em sentido inverso. Daqui se prova que os dois homens, garantidos pelo politicamente correcto como separados por um fosso ideológico intransponível, souberam conversar e apreciar as respectivas ideias e posições, se calhar não tão opostas como conviria à nacional e tão esquerdófila bem-pensância.
Acontece que foram dados os direitos de publicação dos discursos produzidos durante os solenes actos de doutoramento a um dos académicos que tomaram a iniciativa de os realizar.
Naturalmente, querendo homenagear a publicação a que se propunha, o académico em causa pediu ao Primeiro-Ministro que prefaciasse a obra. Nada mais natural. Alguém que, não sendo do mesmo meio, nem tendo, supostamente, ideias parecidas com as do doutor Krugman, tivesse proeminência política e ideológica era a escolha ideal. Nada melhor que o Primeiro-Ministro, cujo respeito por homenageado é público e notório.
Aqui é que a porca torceu o rabo. Os magníficos reitores das universidades envolvidas nos doutoramentos (a UL, a UTL e a UN) recusaram-se a aceitar o tal prefácio. Tratava-se, segundo tão ilustres personalidades, de propaganda política e pessoal do Primeiro-Ministro e de quem para tal o tinha convidado, ainda por cima académico conhecido como militante do PSD e ex-ministro. O editor borregou pelas mesmas razões.
Ou seja. O gato ficou com o rabo de fora. A razão dos doutoramentos nada tinha a ver com o reconhecimento do trabalho do homem. Era, muito simplesmente, pelo menos nestas brilhantes cabeças, uma jogada política para pôr em evidência um intelectual que não partilhava das receitas em vigor e, por conseguinte, a coisa não passava de uma jornada de propaganda contra o governo. Tratava-se de mera política, e da má.
O tiro saiu pela culatra. O homem defendeu as suas ideias, mas, percebendo o que se passa, também defendeu o governo! Tanto trabalho, tanto dinheiro gasto e, afinal, o resultado foi nenhum, pelo menos em relação ao objectivo. A publicação do prefácio do senhor Passos Coelho seria a cereja no cimo de um bolo que tinha saído estragado! T’arrenego!, disseram os reitores.
Mas a lição ficou dada pelo novo triplo doutor.
Quem anda a fazer política não é ele, não é quem convidou o PM para escrever o prefácio, não é, no caso, o PM. De onde se poderia esperar política, ou politiquice, nada. De onde menos se esperava, lá veio ela: dos reitores, das universidades, do editor, tudo minha gente ao serviço da esquerda.
Bonito!
8.7.12
António Borges de Carvalho

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