A distinta câmara de Lisboa, grande propagandista da “mobilidade” – até tem um vereador para a mobilidade, o qual, como que por acaso, só faz asneiras – vem espalhando a sua benéfica influência sobre a cidade, arranjando as maiores confusões de tráfego jamais registadas, impulsionando o uso da bicicleta a fim de haver mais acidentes – isto entre outras modalidades de serviço público a que vimos assistindo – PROIBIU a construção se uma rampa de acesso a cidadãos vítimas de paralisia cerebral residentes ou assistidos numa instituição privada que os apoia.
Durante três anos – o que é isso perante a grandeza do socialismo camarário? –, a Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa pediu autorização para construir a tal rampa. A coisa foi liminarmente recusada, como é timbre da nobre autarquia. Durante três anos, a associação lutou pela rampa. Durante três anos, os doentes foram carinhosamente levados em braços, com cadeira de rodas e tudo, da via pública para as instalações.
Até que o Provedor de Justiça entrou em acção e a notável autarquia acabou por autorizar a coisa, vergando-se a contra gosto aos conselhos do dito.
Isto quer dizer que, se você não tiver paralisia cerebral ou coisa parecida, como não tem o auxílio do Provedor, se arrisca a andar a vida inteira a pedir batatinhas para uma alteração qualquer que queira fazer naquilo que é seu.
Se lhe chegar a vida inteira para chegar a uma solução, se ultrapassar todos os escolhos que, para além de engenheiros, arquitectos, juristas, burocratas, regulamentos, portarias, decretos, etc., a câmara lhe põe no caminho, mais um pelotão de parasitas – o Instituto da “Qualidade”, a Certiel, a EPAL, os tipos da energia ou lá o que é, se a porca de três oitavos não estiver no lugar da de meia polegada, se, se, se, talvez consiga a almejada licença.
Se vir que a vida lhe não chega, em alternativa à desistência você pode tentar, com eventual sucesso e indiscutível legitimidade, pôr-se na posição de corruptor activo. A corrupção não será sua. Corrupto é o sistema, do princípio até ao fim. Corruptas são as mentalidades que o geraram, que o sustentam e que se sustentam dele.
Ao contrário do que pensa o IRRITADO, tudo não passa de uma questão social. Se os batalhões de empatas não dispusessem de um sistema adequado à sua nobre actividade, ficavam desempregados!
Vêem como o IRRITADO não tem razão? Vêem porque é que a rampa da paralisia cerebral jamais devia ter sido construída?
10.8.11
António Borges de Carvalho

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