Quer a nossa app?, disse-me a rapariga da caixa dos hamburgueres. Perguntei o que era aquilo. Dá descontos e promoções. Então diga. Nome, morada, código postal, NIF, email, data do nascimento… Antes que a fulana me pedisse o número das cuecas e o registo criminal, acabei com a coisa: pare lá com isso, diga-me quanto é e boa tarde.
Este tipo de cena repete-se à exaustão em tudo o que é loja, lojeca ou tasca. Depois, as lojas, lojecas e tascas passam a vida a mandar SMS rigorosamente estúpidos que, no meu caso, nunca são lidas, mas chateiam. Pior, as lojas, lojecas e tascas vendem os dados não sei como, e mais catadupas de mensagens são metidas na minha caixa por gente de quem nunca ouvi falar e a quem jamais dei endereço nenhum.
Há pior. Olhem os tipos das TV’s a vender pacotes, os da electricidade e do gás a engatar clientes. Onde foram buscar o meu telefone? “Comprámos”, confessou uma tipa de um call center, quem sabe se aquela meia-leca do BE que se queixa do emprego. Pois compraram, não sei a quem, mas parece que há umas empresas “de dados” que se dedicam a este tão honesto comércio.
E ainda há pior. As pessoas, de moto próprio, metem-se em redes sociais, a contar inanidades, parvoíces e “feitos” de vária ordem. Há-as “anónimas” a fazer comentários aos milhões. Mas, para os donos dos dados, não são nada anónimas, estão catalogadas, devidamente classificadas em algoritmos de toda a ordem e, valha-me São Crispim, gostam muito das “sugestões” que lhes mandam, todos os dias, vindas não se sabe de onde. Têm a sua quota de fama, de exposição, de gabarolice. É triste, mas é assim.
O sigilo de correspondência, ínsito em inúmeras constituições, é letra morta. Qualquer aprendiz de hacker penetra no computador, no tablet, no smartphone, onde lhe apetecer. Entra nos bancos, nos offshores, nos inshores, no Pentágono, no raio que o parta. E toda a gente acha muito bem. Os autores destas maroscas, quantas vezes, ganham o estatuto de heróis.
A coisa, como não podia deixar de ser, entra na política. Se as campanhas políticas usam panfletos, auto-colantes, outdoors, etc., porque não hão de usar as redes sociais?
Mas, na política, as reacções são de diversa ordem. Levantou-se um clamor ontra o uso das redes a favor do Trump. Muito bem, o Trump é um canalha. Por acaso, em relação ao Corbyn, o mesmo sistema não causa clamor nenhum, o Corbyn é um herói. Quem explica?
Vem isto a propósito da “queda” do rapaz Zukerberg, o do Facebook. O tipo tem sido crucificado por causa de uma fuga qualquer de dados. Não percebo. Então o que foi feito não é o mesmo que fazem os tipos do uiquiliques & Cª, o senhor Assange que está metido numa embaixada para não ser preso por violação, os jornalistas que, sem mandato, entram onde lhes dá na gana por processos teoricamente ilegítimos?
O princípios legais do sigilo e da privacidade são violados todos os dias por quem lhe apetece violá-los. Depois, à la carte, os autores das violações são heróis ou bandidos segundo a natureza da espionagem que praticam.
O Facebook foi violado? Claro que foi. Como violados podem ser todos os sistemas informáticos, dos mais simples aos mais sofisticados, com a melhor ou a pior das intenções. No caso, o culpado é o Zukerberg. Por que carga de água? Se as pessoas se metem no sistema, sabendo perfeitamente que aquilo, como todos os sistemas, é violável, como é que andam para aí aos gritos de “privacidade”, “sigilo”, “direitos humanos” e outras matérias que toda a gente estima, mas que toda a gente põe em causa?
Mistérios da vida moderna.
2.5.18

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