Há mais de 100 anos que o “News of the World” alimenta a curiosidade mais ou menos mórbida da sociedade britânica. De tal forma que se tornou no hebdomadário mais vendido do mundo, com três milhões de exemplares por edição.
Alimentando o que é, afinal, a última “notícia” da publicação, a opinião mundial agita-se à volta do escândalo de umas escutas telefónicas que, segundo consta, eram feitas por uns especialistas da polícia pagos por baixo da mesa para o efeito.
Acresce que há, metido na marosca, um tipo que era assessor de imprensa do primeiro-ministro.
De repente, o que uma sociedade inteira aceitava com agrado, comprando, lendo e fofocando à custa, torna-se objecto da mais indignada revolta social.
Quantos milhares de pessoas se viram prejudicadas, ofendidas, denegridas, expostas, violadas na sua privacidade pelo NW ao longo de mais de um século, perante a feliz curiosidade e a desbragada bisbilhotice de milhões de pessoas?
Quantas continuam a ser expostas pelos inúmeros colegas do NW que andam, impunes e impávidos, no mercado?
É evidente que o assunto tem que ser “lavado” pela Justiça. É evidente que o PM tem que reiterar ou demonstrar a sua ignorância sobre as alegadas manobras do seu ex assessor. É evidente que os polícias metidos na trafulhice têm que ser castigados. Etc.
Quanto ao jornal, já teve o que merecia. Fechou.
O público, esse, alimenta-se do escândalo tal e qual como se alimentava das notícias do jornal. O público indigna-se tanto com a história como se divertia com as histórias. Ou seja, diverte-se com ambas. A baixeza social é a mesma.
É triste, mas é assim.
Acresce outra história. A do magnata. O velhote, que de santo deve ter pouco, emprega mais de 50.000 pessoas. É óbvio que, dos procedimentos dos culpados, deve saber tanto como eu. O que lhe interessa são as folhas da contabilidade, o cash flow, a tesouraria, o balanço. Não anda, mais que não seja porque não tem tempo, a mandar fazer escutas nem é provável que saiba delas. Mas serve, agora, de bode expiatório de todos os males. O público adora.
Gostava de saber o que pensam as tais 50.000 pessoas ao ver o patrão a ser cozido em lume forte.
É triste, mas é assim.
21.7.11
António Borges de Carvalho

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