Um dos mais interessantes fenómenos dos tempos que correm é este das manifestações de rua. É que, para além das hostes profissionais, e da chamada comunicação social, já pouco há quem ligue. O Carlos farta-se de bramar, mas, para além do disco riscado, a única coisa de “novo” é anunciar a manifestação que se segue. Por mais que se esganice, parece que só os membros do regimento o ouvem.
A manifestação da ponte foi o que se viu: um flop em relação ao prometido. Queriam um exército e não tiveram mais que um batalhão. Nem o regimento estava completo!
A tecnologia localizada, isto é, os mini grupos que esperam o governo por portas e travessas, parece estar a esmorecer. Ajuntamentos de umas dezenas de protestantes são muitos, e muito pífios. Só os media os safam.
As doutoras do “que se lixe a troica”, pura burguesia bem vestida e ansiosa de notoriedade, são recebidas pela loirinha oxigenada do Parlamento, impantes e histéricas como é de ver, mas não conseguem mais que umas dúzias de manifestantes, e fora das escadas, que a loirinha parece mandar menos que a polícia.
Quer isto dizer que o pessoal está satisfeito? Claro que não. Quer dizer que a malta se conforma? Nem pensar.
Quer dizer que não acredita nos velhos condotieri, como o Carlos, nem nos novos, que querem apanhar o combóio da “liderança de massas”. A verdade é que, se não forem os profissionais do Carlos e do bigodes – malta do PC e idiotas úteis – que se manifestam porque é essa a sua natureza mais profunda, deixou de haver o chamado “povo em fúria”. As “massas” passaram à peluda.
Não há fúria? Há. Mas há também a consciência das coisas, a provocar, não indiferença, mas a noção evidente que o que tem que ser tem muita força, isto é, que se não se pagar assim pagar-se-á assado.
Grassa pela Europa fora a mesma doença, com manifestações de diversa índole e de diversas cores. O que lhes subjaz, porém, é o mesmo, a noção de que não vale a pena travar o que aí vem, que há uma onda de desgraça. Passará como todas as ondas, não se sabe ainda é a extensão dos estragos que vai deixar.
O pós-guerra chegou ao fim. As filosofias do pós-guerra também, por muito que nos custe. O Estado social ou passa a ser outra coisa ou cairá de velho. O capitalismo, ou seja, a natureza humana, adoeceu, sendo incerto como se poderá cuidar da doença.
As pessoas – nós todos – não sabem, coitadas, o que as espera. Mas sabem que não é o Carlos, nem as meninas do que se lixe a troica, nem as manifestações de “massas”, nem a arruaça, o que as pode ajudar a dobrar o cabo das tormentas.
2.11.13
António Borges de Carvalho

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