Senhor Presidente
Acabo de o ver um senhor de sessenta e tal anos aos pulinhos, desajeitado e ridículo, no meio de inúmeras e gozosas criancinhas. Não queria acreditar em tão patética cena. Depois, realizei que o pobre senhor era nem mais nem menos que o Presidente da III República Portuguesa, ou seja, Vossa Excelência.
Devo dizer-lhe, senhor Presidente, que tive mais pena que vergonha.
Mas há pior. Vossa Excelência lançou entre nós, antes da sua viagem a Moçambique, a ideia de que ia até lá num papel de mediador entre as partes que por lá se guerreiam. Visitou, em Roma, a Comunidade de Santo Egídio, que tem experiência na matéria, servindo-se da visita para vestir as mediadoras vestes. Finalmente, chegado a Maputo, bem se fez a tal piso. Levou com os pés, diplomaticamente ou não tanto. Os seus tão proclamados amigos moçambicanos, em bom português, disseram-lhe claramente que não queriam que se metesse onde não era chamado. Um tristíssimo flop.
Há mais. Decidiu Vossa Excelência entrar na polémica do acordo ortográfico. Não o critico pela intenção, mas, que diabo, devia ter-se precavido. Não precisava para nada de receber lições do tenebroso Santos Silva, o chamado ministro dos negócios estrangeiros. Mal Vossa Excelência tinha declarado a sua intenção e já aquele trauliteiro profissional lhe dava com os pés, em conferência de imprensa quem sabe se convocada exactamente para isso.
Muito tem Vossa Excelência sido criticado nestas páginas. Com o desgosto de um eleitor que confiou em alguma independência da sua parte e que o tem visto totalmente alinhado com o chamado governo, a papaguear por palavras suas as que o chamado primeiro ministro vai dizendo. Não estaria certo que criticasse ou fizesse a “vida negra” ao chamado governo. Nenhum dos seus eleitores lho pedriria. Mas, da mesma forma, nenhum dos seus não eleitores imaginaria possível que chegasse ao ponto de seguidismo a que se tem dedicado.
Senhor Presidente, permito-me chamar a sua atenção para a necessidade de refrear a sua mal informada ou mal pensada ânsia de popularidade. Há limites para tudo. Há poças onde não de deve pôr o pé. O bom senso não fica mal a ninguém.
Pense nisto. Olhe que os dois exemplos que acima refiro são paradigmáticos. Por quem é, preserve-se um bocadinho mais. Nem o senhor nem nenhum português perderá nada com isso.
Melhores cumprimentos
IRRITADO
5.5.16

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