Tenho, muitas vezes, nestas páginas, desdenhado do semi-presidencialismo à portuguesa, sistema que não é carne nem peixe, que põe os cidadãos a votar num fulano sem lhe dar o poder que uma eleição directa pressupõe, que duplica a legitimidade popular e complica o seu exercício, sistema em que os presidentes têm que inventar um “poder moderador” que não existe na Constituição, fabricar uma “magistratura de influência” sem conteúdo oficial ou oficioso, insistir em dizer que nos representam quando só representam a República.
No entanto, tenho que reconhecer que, neste momento, tudo está nas mãos do Presidente. É verdade que, para tal, bastaria que tivesse sido eleito no Parlamento, mas facto é que tem o poder de indigitar ou não indigitar o Primeiro-Ministro, sem precisar de cometer as monumentais asneiras e abusos dos seus predecessores, os “governos de iniciativa presidencial”, o PRD, etc., de Eanes, a perseguição sem tréguas ao governo eleito, de Soares, o ódio jacobino e ultra socialista à mais alta escala ou o golpe de Estado, de Sampaio.
Cavaco, um feroz institucionalista, que só esteve “ao serviço do governo” na boca do nacional esquerdismo, está no centro do actual problema.
Costa tem traído tudo, e trairá ainda mais se o deixarem. Traíu o antecessor, defenestrando-o sem qualquer sombra de razão (como o futuro veio a demonstrar), traíu todas as tradições democráticas do seu próprio partido, trai os resultados eleitorais e os que nele votaram colocando-se do lado de quem mais o atacou, trai o país ameaçando colocá-lo numa posição que instância alguma daquelas de que dependemos vai aceitar, trai a confiança de terceiros tão duramente conseguida por uma Nação inteira, trai a Constituição que sacralizou, a Europa a que jurou fidelidade, trai tudo o que tem à mão em nome de uma questão simples: a sua sede de poder, sem escrúpulos nem vergonha. Faz a manipulação aritmética, não politica, das eleições, metando-nos a todos num mar de trafulhice e de desgraça. Costa é abjecto.
Só o PR o pode travar. Só o PR, sendo fiel ao seu discurso eleitoral, pode, para alívio da Nação, obstar à monumental trafulhice que Costa prepara. Subitamente, os partidos comunistas passam a europeistas e eurófilos, isto sem precisar de qualquer contrição ou negação de convicções com décadas de existência e de coerência marxista. E Costa, com a sua peculiar “honestidade”, finge acreditar, a troco do poder. Sabe-se que um governo como o que o traidor prepara durará pouco. Sabe-se que os meses que tiver pela frente arruinarão tudo aquilo por que os portugueses vêm lutando há quatro anos. No dia glorioso em que cair, o governo Coata deixar-nos-á outra vez na pior das lonas. Costa já traíu quase tudo o que havia a trair. Falta-lhe trair o futuro.
A não ser que o PR seja capaz de nos livrar dele.
12.10.15

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