Num dos seus habituais e enganadores leads, parangona o “Expresso” acerca do filme sobre as cartas de amor de António Lobo Antunes: “A guerra colonial que Portugal tentou esquecer”. A seguir, que o escritor “nos devolve a memória da guerra colonial”.
Não ponho em causa o direito do escritor de nos dar a sua imagem do que foi a sua experiência em Angola, ainda menos o de a sentir e interpretar como muito bem entender. Ainda por cima, António, que é um génio (nenhuma ironia no qualificativo), produziu vasta e boa literatura sobre o assunto, escrita e publicada num tempo em que o comum dos mortais ainda o compreendia. Li-a toda com emoção. Admiro-a, como admiro e prezo o seu autor.
Acho muito bem que tenha escrito o que escreveu, que promova ou patrocine os filmes que entender e faça mais o que lhe vier à cabeça. Não ponho em causa a qualidade do filme, que ainda não vi nem sei se verei, mas que admito. Outrossim, não me atreveria a pôr em causa o discutível aproveitamento de missivas íntimas para exploração em fitas de cinema.
Posto isto, vamos às “bocas” do “Expresso”:
É mentira que Portugal tenha tentado esquecer as guerrilhas ou guerras de África. Todos os dias aparecem publicações sobre o assunto, as mais delas fruto de mera “correcção” política mascarada de história, raríssimas as com alguma qualidade ou amor à verdade. A questão não está esquecida nem abandonada por quem nela pensa, ainda menos pelos que restam dos a viveram.
Também é mentira que o filme “nos devolva a memória da guerra colonial”. O filme, quando muito, dar-nos-á a memória que Lobo Antunes tem dela, coisa respeitável, até admirável, mas pessoal, não colectiva.
Tenho, como todos os que por lá andaram, o direito de ter memórias diferentes, ou antagónicas, das do escritor. E não se diga que assim é por ter andado pela ZIAC (zona de intervenção do ar condicionado, como lhe chamava Vasco Gonçalves, comodamente instalado em Luanda). Andei 27 meses pela ZIN (zona de intervenção Norte), e nunca cheirei, bem pelo contrário, nada de parecido com ar condicionado. Não quer dizer que disso me gabe, nem que tenha qualquer razão para me gabar. Facto é que, em situação semelhante, a minha memória é outra que não a do escritor. O “Expresso”, certamente com intenção politicamente correcta, como é habitual entre nós e mormente no dito jornal, atreve-se a generalizar a “memória”, como se o facto de Lobo Antunes ser um gigantesco escritor lhe conferisse, por interposto “Expresso”, o monopólio dos sentimentos ou das opiniões dos outros. Coisa que Lobo Antunes não reivindica, mas que o “Expresso”, mentindo, generaliza.
3.9.16

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