Hoje, sábado, o IRRITADO passou os olhos por uns três ou quatro jornais.
O tema do dia, como não podia deixar de ser, é a Moody’s.
Já está tudo dito, ou quase. Do Presidente da República ao storyteller Tavares e ao seu primo ex-BE, não houve bicho careta que ficasse fora da polémica.
Todas as críticas estão certas, desde os que acham a Moody’s (e as outras) uma espécie de demónio em figura de empresa, aos que acham que a coisa não anda fora da razão, todos concordam, por uma razão ou outra com o “murro no estômago”. Tudo minha gente tem razão.
Que fazer?, como diria Lenine confrontado com as hesitações da grande revolução.
Para já, o murro no estômago provocou algumas coisas boas: o senhor Trichet deu sinais de ter saído da sua habitual letargia; o senhor Barroso, célebre por não fazer nada que se veja, largou umas indignadas bocas; o senhor não sei quantos, em representação da dona Ângela, mostrou as garras às agências em vez de, como é costume, as mostrar aos infelizes que estão tesos.
Em suma, parece que alguma coisa mexe. Já não é sem tempo.
Qual a solução? Fala-se para aí em fundar uma agência europeia, como se tal coisa não existisse já. Existe, mas não tem clientes. Além disso, uma agência é uma coisa privada, dificilmente podendo surgir no seio dos Estados, da Comissão, do Conselho ou do PE.
O resultado da iniciativa, fatal, seria o de, ou ninguém ligar bóia à nova agência, ou a agência agir como as outras para não se queimar junto de certos clientes.
Dever-se-ia começar por perguntar de que vivem as agências. Porque avaliam elas os Estados? Porque os Estados lhes pagam, e não pouco, para ser avaliados. Porque avaliam os bancos? Porque os bancos lhes pagam, e não pouco, para ser avaliados.
Então, a solução torna-se evidente: é a da “greve” dos clientes. Se os clientes mandarem as agências às urtigas, onde vão parar as agências? À lona, meus senhores.
Dir-se-á que quem investe precisa de pareceres técnicos independentes para informar as suas decisões. As agências? Com certeza que não. Não se pode confiar em gente que dava altas classificações à Enron, ao Lehman Brothers, ao Madoff e a outros seriíssimos cavalheiros. Valiam tanto tais avaliações como valem as actuais: nada.
Por tudo isto, o que há a fazer é criar um movimento, ao nível da Comissão, do Conselho, do Parlamento Europeu, dos governos nacionais, dos bancos, etc., para tirar o tapete de debaixo dos pés das agências. Simultaneamente, as avaliações seriam entregues a uma entidade independente, que não pode deixar de ser o Banco Central Europeu, a fim de dar alguma credibilidade às informações.
Os bancos, e outros, se quisessem, faziam mais profundamente as suas análises. Que diabo, não têm lá profissionais para isso?
O que é simples, é sabido, é muitas vezes o mais difícil de fazer. Mas vale a pena tentar.
A tal agência europeia, estilo panaceia salvadora para entreter o pagode, é que não!
9.7.11
António Borges de Carvalho

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