IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


RENDAS E FALÊNCIAS


Há para aí uns doze anos, o autor do IRRITADO publicou um livrinho de ensaios a que chamou diatribes  (O PRESIDENTE DE NENHUM PORTUGUÊS, editora Europa América, 2001). Passe a publicidade. Numa das tais diatribes, dedicava-se o autor a condenar com veemência uma campanha governamental que tinha por objectivo proteger, com chorudos dinheiros públicos, o chamado “comércio tradicional”.

O comércio tradicional era, no conceito governamental, o comércio de rua antigo, de que Lisboa e Porto abarrotavam. Na esmagadora maioria dos casos, tal comércio tinha, como única razão de ser, o facto de não ter custos de instalação, uma vez que se fundava em rendas do tempo da Maria Cachucha, gloriosamente protegidos pelo Estado desde a primeira república. Se pagassem rendas actuais, as lojas fechavam, não porque tais rendass fossem especulativas ou exageradas, mas porque as lojas, em condições normais, jamais sobreviveriam. Tinham um muito lucrativo produto escondido para vender: o trespasse e/ou a venda de quotas. Se decidissem fechar as portas, ganhavam a reforma e, ainda melhor, vendendo as quotas da sociedade o novo proprietário continuava calmamente a não pagar renda. Razão pela qual andar o Estado a proteger estes comerciantes de xaxa com dinheiros públicos, em vez de os obrigar a modernizar-se e a enfrentar os custos de instalação ou, simplesmente, a fechar, era um desperdício e um contributo para a paralisia económica e para a degradação do património das cidades.


O fecho de uma loja inviável jamais foi drama de maior. Se estivermos dois ou três anos numa cidade que se preze (Londres ou Paris, por exemplo) vemos, todos os dias, abrir e fachar lojas. As que se safam, continuam. As outras fecham. Vem sempre alguém a seguir alugar ou comprar as instalações. O comerciante, esse, ou muda de ramo, ou vai prégar para outra freguesia. A vida continua.


Estes movimentos, em Portugal, foram simplesmente proibidos durante mais de um século! Criou-se uma floresta de lojas sem sentido ou viabilidade. Há por cá mais comes-e-bebes por habitante que em Londres ou Paris, isto para falar só em comes-e-bebes. No resto, é mais ou menos a mesma coisa. Olhem para as ruas da baixa, por exemplo! Lado a lado, lojas modernas, com rendas actualizadas, fazem o seu negócio sem problemas de maior – ou não fazem, e fecham, como é da natureza das coisas – e lojas completamente obsoletas, sem outra viabilidade que não seja a que é paga pelo senhorio.


Nos dias que correm, anda para aí uma data de artistas a gritar que há muitas lojas a fechar por causa da nova lei das rendas. Esta, finalmente,  adiantou alguma coisa, ainda que com tantas peias burocráticas e “sociais” que ninguém se entende lá muito bem com ela. É natural e lógico que muito do comércio dito “tradicional” se vá abaixo. Aumentam as rendas e, ao mesmo tempo, baixa o consumo. Mas, de uma forma geral, o que se passa é positivo em termos de futuro, de verdade e de modernização.


O problema é que os “velhos do Restelo”, ou as “forças de bloqueio” têm, entre nós, mais força que em qualquer outro país da Europa, ou até do mundo.

Parece que, mesmo assim, a coisa vai para a frente. Que diabo, alguma coisa boa há-de acontecer nesta pobre terra!

 

24.4.13

 

António Borges de Carvalho



4 respostas a “RENDAS E FALÊNCIAS”

  1. Dou-lhe razão em vários pontos – quanto às rendas absurdamente baixas e aos trespasses abusivos, está coberto de razão – mas alguma vez criou um negócio, e teve de pagar uma renda? Alguma vez teve uma renda cara para pagar? Quer o seu negócio venda muito ou pouco, a mesma renda, de que o seu senhorio não prescinde, porque quer sempre lucrar o que não lhe custa (a ele) a ganhar? Melhor ainda: alguma vez criou um negócio, Irritado? Tal como sobre outro tema – salvo erro, um post sobre trabalhos duros, que alguns desempregados recusavam – sabe do que fala, ou fala do que não do que não sabe? ——————- Mudando de tema, ouvi há horas uma entrevista, na Sic Notícias, do José Gomes Ferreira ao Sr. Henrique Gomes. O Sr. Henrique Gomes foi Secretário de Estado da Energia, e demitiu-se – supostamente – por repúdio à MAMA DA EDP. Foi (salvo erro) a primeira baixa deste governo. Na entrevista, confirmou tudo: rendas abusivas, extorsionárias, até mafiosas, um Governo xuxa criminoso, um Governo laranja passivo/cúmplice, e um país saqueado por MAMÕES em roda livre. Num país normal, esta entrevista seria um escândalo impossível de ocultar, tanto para a EDP, como para o Governo anterior, como o Governo actual. E cá? Irritado, caro empresário, o que acha que vai acontecer?

    1. À questão “…o que acha que vai acontecer?”, a resposta é óbvia. Postará mais um comentário sobe o inefável Pinto de Sousa, enaltecendo o “inocente” PPC!

  2. OÃO MIGUEL TAVARES Publico01/03/2013 – 00:00Com a ida do jornalista Licínio Lima para a Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, elevam-se para 10 – convém repetir este número: dez – os jornalistas que transitaram da redacção do Diário de Notícias para cargos de nomeação directa do Governo de Pedro Passos Coelho. Por ordem alfabética: Carla Aguiar é assessora do ministro da Administração Interna, Eva Cabral é assessora do primeiro-ministro, Francisco Almeida Leite é vogal da administração do Instituto Camões, João Baptista é assessor do ministro da Economia, Licínio Lima foi nomeado para director-geral adjunto de Reinserção, Luís Naves é assessor de Miguel Relvas, Maria de Lurdes Vale é administradora do Turismo de Portugal, Paula Cordeiro é assessora do ministro das Finanças, Pedro Correia é assessor de Miguel Relvas e Rudolfo Rebelo é assessor de Pedro Passos Coelho. Espero não me estar a esquecer de ninguém.Entre estas pessoas há, como é óbvio, de tudo: gente inteligente e competente, gente inteligente mas pouco competente, e gente pouco inteligente e muito incompetente. Eu sei disso porque trabalhei durante vários anos com quase todos na redacção do Diário de Notícias. No meio dos dez há inclusivamente uma amiga minha, e se trago para aqui esta lista com nomes concretos não é para acusar ninguém de se ter andado a vender ao Governo enquanto jornalista (embora, a bem da verdade, não ponha as mãos no fogo por todos) e muito menos para acusar o Diário de Notícias de ser um viveiro de “laranjinhas” – até porque na altura de José Sócrates o jornal era acusado de andar a fazer fretes ao PS. Se exponho isto publicamente é, isso sim, porque a minha consciência me obriga a denunciar, com mais do que palavras vagas, a extrema hipocrisia do Governo de Passos Coelho, que anda por aí a pregar um novo Portugal e uma nova forma de fazer política, e depois continua a encher gabinetes e administrações de jornalistas.O problema, aliás, não é só encher os gabinetes e as administrações – é também a forma como os enche. Quase todos os jornalistas que vão para cargos de nomeação directa saem com requisições de serviço, como se estivessem a ser convocados pelo Governo para ir para a guerra. Ou seja, o lugar no quadro fica assegurado. E as administrações, que recusam com frequência licenças sem vencimento a jornalistas que querem tirar mestrados e valorizar-se profissionalmente, usando o argumento de que são indispensáveis ao funcionamento do jornal, mostram-se depois disponíveis para aceitar estas saídas para o Governo, mesmo que às tantas elas já representem 10 ou 15% da redacção, como é o caso do DN. E mostram-se disponíveis porquê? Não é porque concordem, nem porque não lhes desse jeito aliviar o quadro. É porque não querem chatices com os Miguéis Relvas desta vida.Caído o Governo, corrido o pessoal dos gabinetes e das administrações, esses jornalistas regressam então alegremente às redacções de origem, como se aquele período às ordens dos políticos, passado a praticar spin, fosse um curso de formação profissional – que, com sorte e boa capacidade argumentativa, até os vai habilitar a exercer melhor a sua actividade no futuro. Querem uma explicação para o estado em que Portugal se encontra? Têm aqui mais uma.Enquanto os portugueses são espremidos de segunda a domingo, e Pedro Passos Coelho utiliza discursos comoventes sobre a necessidade de modificar a mentalidade da pátria, o que se vê nas estruturas do Estado é o mesmo de sempre – ou até um bocadinho pior, porque saltarem dez jornalistas de uma única redacção deve ser algo inédito na história da democracia portuguesa. Pela boca morre o peixe, e pela boca há-de morrer este Governo, que é incapaz de manter a elevação ética necessária para impor os níveis gigantescos de sacrifícios que os portugueses estão a suportar. Promulgam-se novas leis laborais, exige-se a perda de velhos hábitos, tudo se quer flexibilizar, mas o círculo dos protegidos, esse continua ao abrigo de todas as tempestades.Com as empresas de media a atravessarem extremas dificuldades, com cortes salariais constantes e falta de perspectivas na profissão, qualquer lugar num gabinete de imprensa é uma atracção irresistível para um jornalista que começa a ver a sua vida a andar para trás. Só que tu

    1. Conforme a minha previsão, eis que “regressa” a outra face da mesma moeda (tecelao e irritado são faces da mesma moeda)!!!

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