O espectáculo circense oferecido ao povo pelo camarada Narciso Miranda é coisa de fazer rir as pedras. Não que se perceba o que o homem diz, tais as piruetas, os triplos mortais de costas, o cerebrozinho a espumar aleivosias e acusações, mas porque nem patético consegue ser, só cómico.
O fulano foi expulso do PS mercê da altíssima autoridade do chefe supremo. O senhor Pinto de Sousa, como já não manda no governo nem em coisa que se veja, resolveu virar as matracas para dentro e fazer sangue nas hostes. Diga-se que, por uma vez, com toda a razão. Um bando de traidores resolveu candidatar-se por fora do partido e contra o partido. É assim como se um tipo do Benfica desatasse a aplaudir os golos do Sporting no meio dos “No name boys”. Compreender-se-ia a justa fúria das massas, se linchassem o canalha.
Até aqui tudo bem. Traiu, lixou-se. Certo.
O pior é essa chatice da coerência.
Se estão bem lembrados, o camarada Alegre, justamente célebre pelas suas intervenções radiofónicas em Argel, cometeu exactamente o mesmo crime, mas com agravantes de alto coturno. Candidatou-se à Presidência da República não só contra o PS mas também contra o símbolo máximo da moral republicana, o intocável Mário Soares, há décadas canonizado pelas hostes.
Seguindo a lógica republicana aplicada ao Narciso, o Alegre devia ter sido não só expulso como condenado na praça pública, torturado, lapidado, cremado, deitadas à estrumeira as suas malvadas cinzas. Traição maior não pode haver!
E, no entanto, sob proposta do camarada Louça, o Alegre é agora candidato do PS às presidenciais!
Quem põe em risco a gloriosa caminhada do PS em Matosinhos, ou Paranhos, ou lá onde foi, é expulso.
Quem concorre contra o PS à “mais alta magistratura da Nação” – como diria o Salazar – não só não é corrido como se torna, com honras de fanfarra, o representante máximo da organização.
Isto merece uma reflexão sobre a verdadeira moral do PS, ou seja, a moral republicana, tão do gosto do golpista Sampaio, do colunista Soares e da generalidade dos camaradas e dos filhos da viúva.
Quando a ofensa não faz mossa, isto é, se passa em Matosinhos, ou Paranhos, ou lá onde foi, a dita moral cai a quatro patas em cima do criminoso. Quando, pelo contrário, o reprovável cavalheiro causa estragos de monta, a moral republicana respeita-o e ergue-o aos mais altos píncaros.
Nem há moral nem comem todos, dirá quem isto ler.
Não é verdade. Há moral, sim senhor. E da boa. Da republicana. Código tanto mais respeitável quanto se rege pelas conveniências de cada momento, se adapta pragmaticamente a cada caso e tem em atenção, acima de tudo, a “categoria” dos que se julga.
Honroso princípio este, aliás cirurgicamente aplicado por inúmeras autoridades deste país, sempre mais atentas à pessoa do suspeito que àquilo de que suspeito é.
14.8.10
António Borges de Carvalho

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