Um grupo de infelizes residentes no Bairro Azul resolveu enfrentar a PT. Querem os ditos que a colossal companhia deixe de encher os prédios de fios ao dependuro. Que insensata pretensão! Parece que são parvos!
Esta gente não percebe que a PT, monstro com quem o diálogo é impossível, filha dilecta do comunismo que nos arruinou, hermética organização apostada na exploração das pessoas, fiel serventuária do governo que temos, se debruce sobre a estética da cidade (dos prédios dos infelizes) e tenha a monumental generosidade de libertar Lisboa (ou o bairro dos infelizes) das florestas de fios, das caixas, dos caixotes, das trampas electrónicas com que invade a propriedade alheia sem a ninguém pedir licença, sem pagar a ocupação do espaço (as paredes) que é dos outros, sem dar satisfações, sem consideração por nada nem por ninguém, a abrir buracos nas nossas empenas, a dar cabo dos rebocos, a transformar a capital numa espécie de aldeia turca, uma vergonha, uma porcaria.
Permitam Vossas Excelências que lhes conte uma história exemplar, que dedico aos portugueses em geral e aos infelizes do Bairro Azul em particular:
Um amigo meu que é o infeliz proprietário de um imóvel na capital, apesar de causticado pela ausência de rendimento líquido do mesmo (as rendas, ai as rendas), vendo o que é seu a degradar-se conseguiu meter-se num empréstimo que lhe vai levar o resto da vida a pagar e que, eventualmente, – a morte é uma chata – vai ficar de herança para os filhos.
Com os maravedis que o banco generosamente lhe emprestou, o meu amigo fez obras de fundo no seu imóvel, entre elas a construção de uma coluna para os fios da poderosa PT. Esta, prenhe de zelo, exigiu um projecto, feito por técnico “credenciado”, projecto que, elaborado e pago, construído e pago, a PT, passados meses, aprovou.
Feliz, o meu amigo requereu então à ditatorial organização que lhe metesse os fios na tal coluna.
Estúpido! A dona PT exigiu-lhe que abrisse uma vala. À porta do prédio, dirão Vossas Excelências. Cais quê? Uma vala que quase dava a volta ao quarteirão! A PT não é de modas. Queria aproveitar para, à custa do meu amigo, fornecer uma data de clientes. Notável zelo.
Mas não ficou por aqui. Exigiu que o buraco fosse aberto por uma “firma credenciada”… pela PT, firma cujas picaretas devem ser melhores que as das demais. O meu amigo pediu que lhe indicassem uma. Consultada a “credenciada” coisa, foi-lhe apresentado um orçamento cuidadosamente elaborado, o qual era três vezes mais caro o de um empreiteiro a quem pediu um preço “de controlo”. Mas, não sendo este empreiteiro "credenciado" pela PT, mesmo que abrisse o buraco, o buraco não seria utilizado, bem pelo contrário, o meu amigo ainda podia ser vastamente penalizado pela CML, por utilização indevida da via pública! há buracos e buracos, gaita!
O meu amigo percebeu então – só então, o burro – que andava a ser enganado.
Enganado quando julgou que a PT preferia os fios dentro das paredes (perguntou a um funcionário da cáfila, que lhe disse que ao ar livre, para a organização, era galinha da perna). Enganado porque sonhou que a PT até lhe agradeceria ter mandado fazer a tal coluna. Enganado porque lhe passou pela cabeça que a PT, ganhando dinheiro com a cidade, tinha alguma sombra de respeito por ela. Enganado como todos somos todos os dias pelos monstros que o socialismo criou e de que o arremedo grosseiro de capitalismo em que vivemos se alimenta.
O meu amigo só talvez não se enganasse se pensasse que a PT é um polvo de muitos braços, todos eles "credenciados", quer dizer, participantes num bolo a quem há quem chame terríveis nomes.
Agora, apesar de feliz por ter mandado a PT às urtigas, o meu amigo senta-se, melancólico, à porta do prédio e, impotente, assiste aos trabalhos das empresas "credenciadas" que vão continuando a castigar a fachada com mais fios pendurados com pregos às paredes e mais caixas e caixinhas – ele é a MEO, a ZON, ele é o caraças a quatro.
Bem feita, que é para não ser parvo.
O IRRITADO deseja as maiores felicidades aos infelizes do Bairro Azul, os quais parece que ainda acreditam no pai natal.
10.11.09
António Borges de Carvalho
Deixe um comentário