IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


VIAGEM AO MUNDO DOS CANHOTOS

 

Não sei se o IRRITADO já contou esta história. Mas, ao ouvir a palinódia de um tal Pureza(?) no Parlamento, ela veio-lhe à memória.

Numa primaveril manhã dos idos de 78 ou 79 (o IRRITADO ainda não tinha nascido) desembarcava este vosso criado na estação de Campanhã, para um dia de trabalho na cidade invicta.

Umas dezenas de pessoas esperavam no cais, empunhando bandeiras vermelhas. Não eram bandeiras do PC, do PS, do MRPP ou de quejandos. Que bandeiras seriam?

De uma carruagem, vejo então sair um magote de tipos mal vestidos – parecia que se tinham ataviado no tempo da guerra e nunca mais tinham mudado de fatiota.

Os fulanos das bandeiras desataram aos gritos: PTA, PTA, PTA! Fiquei banzo. Mais um partido? Mais comunas, socialistas ou outros tipos de camaradas? Ainda não temos que chegue?

A turba abraçava os recém-chegados com esfusiante alegria. Os visitantes olhavam para a estação como se fosse a Catedral de Colónia e deixavam-se abraçar, meio aparvalhados. Percebia-se que não se entendiam uns aos outros. Que língua falariam?

Perguntei a um dos embandeirados o que era aquilo. Era a UDP a receber os camaradas do Partido do Trabalho da Albânia, PTA, PTA, PTA!

Esclarecido o mistério, fiquei a pensar como era possível ser-se estúpido ao ponto de, em nome do socialismo, apoiar entusiasticamente os sequazes do mais horrível e miserável país da Europa, governado por um tirano, um feroz e sanguinário canalha. Havia, no entanto, que reconhecer que a Albânia era o socialismo na sua mais alta e autêntica expressão. Compreendi. Dei a mão à palmatória.

 

Anos mais tarde, a malta da UDP viria a juntar-se aos nacionais próceres do “socialismo revolucionário”, grupelho que, com Trorsky como orago e Louçã como chefe, andava por aí, há anos, aos papéis. O parzinho acabaria por anexar uma outra organização, confessamente bolchevista que, sob a batuta de Portas (Miguel), publicava um jornaleco, de seu nome “Política XXI”, nome próprio da organização.

O ramalhete assim formado viria a constituir-se em partido político e a intitular-se Bloco de Esquerda.

 

O Bloco de Esquerda foi capaz de arregimentar uns tipos que estavam chateados com o PC, mais umas senhoras gordas, palavrosas e mal vestidas, umas meninas todas bonecas, uns intelectuais sem emprego na política, uns rapazes precocemente envelhecidos, etc. Com esta malta e muito paleio, convenceu não poucos portugueses a presenteá-los com um grupo parlamentar inigualável, uma vez que consegue o bíblico milagre da sua própria multiplicação, o que lhe permite apresentar caras novas todos os dias na AR, as mais delas que ninguém elegeu mas que se sentam no hemiciclo à vez e ganham o ordenadinho como se o tivessem sido. Genial!

É deste ventre que sai o tal Pureza a fazer discursos de alta ortodoxia democrática, condenando regimes socialistas, tais o do coronel Cadáfi, o do camarada Hu e o do social-trafulha Chávez, quiçá porque não são suficientemente socialistas.

 

Sem jamais terem feito o mea culpa do seu passado de torcionários dos valores democráticos, os tipos do Bloco têm a lata de se fazer passar, hoje, por indefectíveis arautos deles. Comunistas, eles?, nem pensar! Como se, com três ovos podres, se pudesse fazer batatas fritas! Um exemplar alarde da mais repenicada trafulhice ideológico-propagandística.

 

Não se apresenta o PC também com a boca a regurgitar “democracia”, como se tivessem alguma coisa a ver com o assunto? Apresenta sim senhor. Mas o PC mantém o trogloditismo estalinista que se pode ler no Avante!, e vai deixando escorrer a verdade em coisas tais que a daquele rapaz gorducho que acha a Coreia do Norte um paraíso dos direitos humanos. O PC tem o rabo de fora e só engana quem quer ser enganado.

 

Com o Bloco a coisa é outra. O Bloco disfarça muito melhor. E, como não tem, que se saiba, parceiros “institucionais” no estrangeiro, dá-se ao luxo de condenar os colegas de ideologia, a fim de convencer os papalvos da sua fidelidade a princípios em que, evidentemente, não acredita.    

 

O que uma pessoa tem de aturar!

 

25.2.11

 

António Borges de Carvalho



6 respostas a “VIAGEM AO MUNDO DOS CANHOTOS”

  1. Avatar de Carlos Monteiro de Sousa
    Carlos Monteiro de Sousa

    Meu caro Irritado,muito bom dia.Como sempre,muito bem apresentada a definição de Bloco que é de Esquerda(?).Estes tipos sempre me fizeram lembrar as “borboletas”: meia dúzia no Rossio fazem tanto barulho que em Viana do Castelo as pessoas pensam que são muitas.Aliás o esquema ´é sempre o mesmo,penso que se deve lembrar do barulho que fazia o PCP em 1975 para se vir a verificar que,afinal,pouco mais eram que 10%,o que surpreendeu muito boa gentinha.Aceite os meus melhores cumprimentosCarlos Monteiro de Sousa

  2. Notável relato do Irritado, que, como é habitual, desfere muitas estocadas certeiras. No entanto, não será o BE a resposta lógica à pseudodireita que temos? Se o CDS pode beijar todas as peixeiras do país, e chorar por todos os pensionistas que oneram o Orçamento de Estado com as suas magras reformas, e o PSD pode fazer todos os acordos que se sabem com o PS, por que não pode o BE ser a esquerda caviar e hipócrita, que faz e diz o que for preciso, para ganhar botinhos? O PCP será troglodita, e estalinista, e o que o Irritado quiser, mas é um facto que não engana ninguém. E isso faz do PCP uma raridade, uma autêntica extravagância na política nacional. Sabem que nunca serão governo, sabem que assustam quase toda a gente, mas não mudam de postura para ganhar votos! Para alguém do PS, PSD, CDS, ou BE, isto é completamente irracional. Por isso, fazia falta alguém mais pragmático – mais VENDIDO, digamos – na suposta “esquerda”, para capitalizar em tantos descontentes que se consideram “de esquerda”, mas temem (com razão ou não) o papão comuna. Se a nossa “direita” o faz, há 30 e tal anos, por que não o BE também? No circo político que temos, o BE é apenas mais um palhaço rico, a fazer de pobre. A malta gosta.

    1. Temem o papão comuna e com toda a razão.Só se tivessem memória curta!

    2. Temem o papão comuna?Não sei se percebi. O que é o BE senão mais um papão comuna?

      1. ContinuaçãoPeço desculpa. A resposta era para o Bastos, não para o Tecelão.

        1. É um papão (muito) mais leve. O BE é uma marca jovem, pretensamente “hip” e urbana, que não tem o peso histórico e cultural do PCP, no imaginário dos eleitores. Digo imaginário, porque o PCP nunca governou nada, o próprio Cunhal apenas foi Ministro sem pasta. Tudo o que se pensa e teme do PCP, é baseado num curto período pós-revolucionário, nas afirmações dos seus dirigentes, e nos exemplos de ditaduras estrangeiras. Assim, os últimos 35 anos foram passados a evitar o abismo comuna, enquanto caímos no abismo actual, cavado pelo PS e PSD. Somos chulados, roubados, e gozados? Não faz mal: ao menos, não somos comunas.

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