Há dois ou três dias, duas notícias chocaram o IRRITADO. Parece que não chocaram mais ninguém.
Aí vão:
a) O Conselho de Estado da República Francesa considerou inconstitucional a proibição da burca, com especiosa argumentação baseada em “direitos humanos”;
b) Frau Merkel foi à Turquia e, para que não se dissesse que não dava nada aos turcos, consagrou o seu “direito” a viver na Alemanha em “comunidades próprias” e autorizou a criação, de escolas primárias e secundárias destinadas a turcos, não se sabendo sequer se no currículo dos cursos a ministrar estará incluído o ensino da língua alemã.
As partir destas duas brilhantes decisões, fica a saber-se que a civilização ocidental, em nome dos seus próprios valores, aceita e protege aquilo que os nega.
Sendo eu produto da civilização clássica e cristã, a qual foi apurando e as mais das vezes aperfeiçoando, ao longo dos séculos, um corpo de regras morais e sociais, não posso, porque isso contraria tais regras, tornar opaca a minha identidade, designadamente escondendo dos demais a minha imagem. Tal coisa, na minha civilização, é reserva de malfeitores.
Mas, se fosse oriundo de uma coisa que se chama Islão – civilização que, ao longo dos mesmos séculos, se atrasou em vez de progredir – podia obrigar a minha mulher a andar de burca, escondendo o principal elemento da sua identificação, a face.
Embora a questão da reciprocidade não seja o mais importante quando desta matéria se trata, valerá a pena referi-la.
Se a minha mulher for a um local onde o Islão é regra, terá que cobrir a cabeça, e não só, se não quiser que lhe chamem rameira ou a apedrejem. Se eu for a tais paragens, serei criminoso se comer chouriço de carne, beber um copo de vinho ou disser a uma mulher que é bonita.
Anda a minha civilização muito atarefada em “integrar” aqueles que acolhe, vindos de outras paragens e credos. Depois, como no caso da Frau Merkel, aceita que tais gentes se “guetizem” voluntariamente, ou seja, recusem e amaldiçoem aqueles que os acolheram e lhes deram trabalho e segurança em condições desconhecidas no seu país de origem.
Qual é, afinal, o problema? Ao contrário do que dizem certas “boas almas”, não se trata de impedir que os imigrantes prezem as suas tradições e idiossincrasias. Trata-se de os fazer entender que, se escolheram viver fora da sua comunidade de origem, têm que se ater às regras sociais e às leis do destino que escolheram. Ou ir embora. Ora isto não é, manifestamente, o que decorre de tais decisões em apreço.
Nada pode justificar, em termos de direitos humanos, que os imigrantes sejam autorizados a ofender gravemente a sociedade onde quiseram viver, pondo em causa os seus costumes e as suas leis.
Que guardem os costumes deles lá para casa, como fazem os emigrantes portugueses com os pastéis de bacalhau.
Como na Roma clássica, os bárbaros que destruíram o Império começaram por entrar e viver nele.
Se a Europa perde a noção da sua própria dignidade, cria, por iniciativa própria e por uso erróneo – ou estúpido e cobarde – dos valores que criou, as condições para a sua própria destruição.
2.4.10
António Borges de Carvalho

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