Ontem, caminhava o IRRITADO, muito sossegado e contente, pela Avenida 5 de Outubro (raio de data!), eis senão quando dá com umas vedações a formar um quadrado, cercadas de tipos com câmaras de televisão devidamente atarraxadas a uns tripés – a coisa estava programada – mais uns fulanos mal vestidos com cara de jornalistas. Por dentro da vedação, uns circunstantes com cara de caso.
De um dos lados, frente às câmaras, um carro de som ou coisa parecida. Ao meio, sentadinhos, dois fulanos. Um era o xarroco dos bigodes, incontestado chefe das hostes “docentes”, com lugar cativo em telejornais e outras martingalas ditas informativas. Outro era um barbaças, tipo Marx da Cascalheira.
O Marx estava no uso da palavra. Os altifalantes ribombavam, avenida acima avenida abaixo, frases que andamos há anos a ouvir, a dignidade dos professores, as malfeitorias do poder, não às avaliações, não às correcções de testes, não a mais meio minuto de trabalho, tudo tem que ser pago até ao último tostão, a classe tem montanhas de direitos, todos reconhecidos pela Constituição, a classe tem os deveres que escolhe, não vêm na Constituição, e por aí fora.
Parece que a coisa não resultou como estaria programado. Não houve lugar, pelo menos que o IRRITADO visse, a reportagens laudatórias. Ou porque a coisa já não dá audiências ou porque não apareceu a esperada e indignada multidão. As pessoas normais passavam, olhavam sem interesse de maior, quiçá com desprezo, ou porque já estão fartas desta gente ou porque o Jerónimo e o Silva, desta vez, deram outro destino ao seu exército privativo de ululantes contestatários.
Que diabo, alguma coisa há-de correr bem neste país.
Quando ao marxes da Cascalheira deixarem de arrastar multidões, quando os professores passarem a ensinar mais e a rugir menos, quando os donos dos empregos vitalícios se virem a braços com a “precariedade”, isto é, com a responsabilidade, e deixarem de ter parvos à trela, talvez haja alguma esperança.
1.4.11
António Borges de Carvalho

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