IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


UM DIA TRISTE, UM FUTURO NEGRO

Em tempos que já lá vão, uns anos antes da nossa adesão à CEE, fui um dos fundadores do que se chamou Secção Portuguesa do Movimento Europeu. Saídos do isolamento da II República, sonhávamos com a integração europeia, como sonharam mais tarde os países saídos do totalitarismo comunista.

A formação da associação foi saudada por muita gente, e o Movimento internacional depressa preparou uma missão para nos visitar. Houve umas reuniões, umas conversas. Percebemos que o Movimento era federalista, coisa que estava longe dos nossos planos. E a “secção portuguesa” morreu à nascença. Queríamos o guarda-chuva económico, não a integração política. No que me diz respeito, pensava que a CEE, colocando-nos num universo político mais vasto, seria uma espécie de seguro contra uma integração ibérica de que por aí se falava.

Os anos passaram. Entrámos para a CEE, tivemos anos de inegável progresso, mas rapidamente entrámos na ilusão da riqueza. Destruimos não poucos sectores básicos da economia sem os substituir por algo que pudesse sustentar as novas despesas, designadamente o exponencial alargamento do “estado social” que o marcelismo tinha criado. Enfim, ao mesmo tempo que progredíamos criávamos as “bases” para a desgraça. Isto através de um Estado tentacular, omnipresente, “subsidiador”, pasto de interesses nem sempre aceitáveis, e de uma sociedade cada vez mais dele dependente, portanto mais anquilosada e inprodutiva.

Veio a globalização. A Europa não conseguiu, nem consegue, estar à altura da emergência de novas economias, ainda menos manter a sua tradicional supremacia científica e tecnológica. O mundo melhorou, e muito, mas a nossa civilização não foi capaz de manter o avanço, e continua a perdê-lo todos os dias.

Multiplicaram-se as crises financeiras, o dinheiro deixou da corresponder ao desenvolvimento económico, autonomizou-se, e perdeu boa parte da sua real utilidade. Ao invés desta tendência, as despesas dos Estados, ora correspondentes ao respeito por protecções a que se passou a dar o nome de direitos, deixaram de corresponder à aplicação dos resultados económicos para ser função do aumento exponencial das dívidas públicas.

Somos disso um dos mais gritantes exemplos. Bancarrota, resgate, impostos brutais, estagnação económica, desemprego, dívida, etc.. Quando, passados quatro anos de sacrifícios, havia claros sinais positivos, eis que sobe ao poder um governo que, em meio ano, conseguiu inverter o curso dos acontecimentos e criar as condições para um novo e colossal abismo. As afirmações de sucesso, as técnicas de “entretenimento” da opinião pública e outros truques do poder podem ir resultando, mas não resistem a qualquer análise, fina ou grossa.

Entretanto, a chamada Europa tribaliza-se, varrida por um vendaval de nacionalismo, em vários países impulsionado pela extrema direita, por cá pela extrema esquerda. Uma e outra descobriram o bode expiatório ideal para os problemas que têm pela frente: a Europa.

Diz-se por aí que as instituições não são democráticas, não são eleitas, não são legítimas. Como se fosse possível eleger seja o que for não havendo um universo eleitoral à disposição! Não, o problema das instituições europeias não é de democraticidade, é de excesso burocrático e de insucesso económico. De acordo que, em muitas matérias, a intromissão de Bruxelas na nossa vida toca as raias do inaceitável, do abusivo e do absurdo. Mas também não é esse o problema. O problema é mais fundo e tem a ver com a decadência generalizada da nossa civilização e com os hábitos de dependência individual que são a consequência negativa do muito positivo progresso social da segunda metade do séc. XX.

O resultado do referendo britânico corresponde à nova “tribalização” da Europa, evidente um pouco por toda a parte, por cá, como em Espanha e na Grécia, presente nas opiniões de inspiração comunista, em França, na Holanda, na Áustria, etc. nas do outro extremo do leque político. Acrescentado isto aos novos nacionalismos, na Catalunha, no País Basco, na Escócia, na Irlanda do Norte… aí temos o caldo de cultura da desagregação e da perda de poder do conjunto das nações europeias. Tudo isto está presente na entente existente entre a extrema esquerda e a extrema direita no Parlamento Europeu, onde os radicalismos vão ganhar força com o Brexit.

No limite, não se vislumbra como poderá, a prazo, resistir a tudo isto a Pax europeia em que nos habituámos a viver e que julgávamos garantida.

Um dia negro, um futuro triste para todos nós.

 

24.6.16



20 respostas a “UM DIA TRISTE, UM FUTURO NEGRO”

  1. Também não gostei, por razões europeístas e por razões pessoais, do resultado do referendo. Em casos como este é ingrata a regra da maioria simples: uma diferença muito pequena tem consequências muito grandes. Quase metade dos votantes preferia ficar na UE. E quase um terço dos eleitores nem votou.Não sei se a regra dos 2/3, como na Constituição, seria mais justa. Certo é que uma decisão como esta devia ser tomada pela verdadeira maioria, não por 17 milhões num país de 64 milhões.Ainda assim, louve-se, o povo foi ouvido. Isto sim: Democracia.

    1. Muito satisfeito ao vê-lo partilhar as minhas dúvidas quanto à legitimidade dos referendos.

      1. Bem sabe que não questiono a legitimidade… pelo contrário: só os referendos são legítimos.Questiono apenas as regras.

  2. Quanto à Europa, a miopia habitual impede-o de ver várias causas da desunião, dos nacionalismos, da morte anunciada desta UE chula, burocrata e – sim – ilegítima.Um artigo no Guardian de hoje explicava bem o Brexit: indecisão crónica de Cameron, algum receio anti-imigração, muito nacionalismo… mas sobretudo uma genuína aversão da Inglaterra profunda à UE e aos políticos. Não apenas aos políticos de Bruxelas: a todos os políticos, incluindo os ingleses.Este “Não” foi acima de tudo para a classe política, e para os mamões que realmente mandam no Reino Unido e na UE.As pessoas sabem, ou pelo menos sentem, que a Europa não perdeu a dianteira pelo “estado social”: isso era parte da nossa dianteira. A Europa era o melhor sítio do mundo para viver e trabalhar.Sindicatos, desperdícios, subsídio-dependência, imigração descontrolada, nada disso ajudou, mas o maior tiro no porta-aviões europeu foi a MAMA. É a pulhítica europeia, a soldo dos mamões, que deixa estes mamar em roda livre.Boa parte da “globalização” é esta mama em roda livre: fechar fábricas na Europa ou nos EUA para abri-las na China, com semi-escravos, para maximizar lucros. E pôr depois esses lucros em offshores.Para os votantes do “Não”, justa ou injustamente, a UE representa tudo isto. Além do egoísmo, têm também razão.

    1. Alguma razão. O tiro da globalização saiu pela culatra aos seus promotores. Mas haveria outra alternativa?

  3. Sr. Filipe Bastos, penso que 201/299 seria mais justo. A vitalidade da Inglaterra assenta no bipartidarismo. Quem ganha assume e quem não ganha não diz que ganha e, elegantemente como fez o sr Cameron, vai fazer outras coisas. Lá não há empatas arrivistas com ou sem rabo de cavalo. Os ingleses continuarão a fazer eleições e referendos sem dramas. A sua D. Isabel II continuará a sentar-se no trono com a Coroa na cabeça pronunciando: “o meu governo”, “os meus ministros” perante ingleses embevecidos.Já chega! Afinal o monárquico é o Sr Irritado.

      1. A interjeição é uma palavra invariável que exprime um estado emocional. Por seu turno, onomatopeia é uma palavra cujo falar lembra o som de uma coisa específica: Exemplo: tic-tac (lembra o som do relógio) Exemplo: cocorocó (lembra o cacarejar do galo)

      2. Cada vez mais, diz o Irritado. Não está só.

  4. Sr Irritado, acabei de ler algures que o PPM quer um referendo em Portugal. Mande às malvas os Pepedocas e siga-os.Dona Alice, aqueles que estão no cimo da montanha estão nas nuvens apenas para os que estão no sopé. Na realidade eles orientam-se no meio do nevoeiro. As nuvens só se vêem ao longe ou quando se olha para cima. Tente subir a montanha e verá que é assim.

    1. Já subi. Vi as coisas sob os diferentes prismas e a percepção é diferente consoante o prisma.Foi perguntado ao “Seguramente Poucochinho” se era “o tó”.Respondeu o Irritado (no habitual timbre irritadiço) “Sou o pai dele”!?Pois bem, “TÓ” é uma interjeição onomatopaica usada para chamar porcos (in Dicionário da Porto Editora.

      1. Todos os fóruns têm o seu troll: aquele tipo que persegue os outros, que não está realmente interessado em discutir nada, que passa meses ou anos a postar as mesmas coisas sem jeito.Por regra não é totalmente burro. Até poderia dizer algo com pouco ou muito interesse, mas não o faz. Prefere ser troll. Será infantilidade? Ócio? Obsessão com parvoíces? Mera falta de gosto?O que lhe parece?

        1. O que me parece? Que és “troll””.

          1. A dona alice acertou na mouche

          2. É verdade que o Filipe é um troll. Porém, tal tem um significado muito positivo: tem todos os olhos aberos, sobretudo um.No entanto, tristemente, de vez em quando, “flipasse”.

          3. O lado mau do anonimato da internet: qualquer reles cobarde se julga gente.

          4. Não ligue a quem não o merece.

          5. Filipe Bastos é um troll super conhecido? ou é tão anónimo como o xxi?Numa coisa tem razão: qualquer reles cobarde se julga gente. Porém, tenho uma dúvida: qual o tamanho do espelho?

          6. Como o Filipe é um narcisista puro, o espelho é enorme

          7. Quando o deus Odin teve o encontro com o rei dos trolls (criaturas mitológicas) perguntou o que era preciso para que a ordem vencesse o caos. O rei dos trolls disse: “me dê um olho seu que eu lhe digo”. Odin arrancou um olho e entregou ao rei dos Trolls, ele então respondeu: “o segredo é manter os dois olhos bem abertos”.

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