Afirma a geringoncial propaganda que a “devolução de rendimentos” é razão para o crescimento económico. À primeira vista, a coisa passa. À segunda, vemos que a tal devolução de rendimentos se limita às hordas de dependentes do Estado, funcionários e pensionistas. Os outros ficam de fora, pela simples razão de que a economia em geral não gera rendimentos para lhes pagar mais. Por outro lado, e segundo o INE, o rendimento das famílias ( dependentes e não dependentes do Estado) subiu 79 euros/mês em 2015, coisa que, daí por diante, não aconteceu.
Outra geringoncial razão para o crescimento é o aumento do consumo que a tal devolução proporciona. Mentira, diz o INE: o crescimento deve-se às exportações e ao turismo, não ao consumo, que continua mais ou menos na mesma. Se aliarmos isto aos miseráveis números da poupança, à nova corrida ao crédito pessoal e ao investimento quase nulo, verificaremos que todas os triunfalismos ou simples júbilos partem de histórias mal contadas.
Por outro lado, os problemas da banca e da dívida não viram evolução que pareça justificar qualquer optimismo, bem pelo contrário. Não colhe, por exemplo, andar a dizer que os 2,5 mil milhões que o Estado enterrar na CGD não contam para o défice. Marteladas nas contas ou dívidas debaixo do tapete (especialidades socialistas) acabam sempre por dar mau resultado.
Tudo isto num cenário em que os geringonços, campeões do Estado social, têm a saúde crivada de dívidas que não param de crescer (e os serviços a piorar), a educação a aumentar brutalmente as despesas ao mesmo tempo que se dedica a experimentalismos bacocos ou ideológicos, a Segurança Social, sejam quais forem os disfarces e as narrativas, em estado pré-comatoso, etc..
Temos os números do emprego a subir, e ainda bem. Mas nem um só dos números que vieram a público esclarece de que emprego se trata, em que áreas e em que termos. O que, com um governo teoricamente inimigo da “precariedade”, faz pensar, não faz?
(à laia de declaração de interesses, informo que nada tenho contra a precariedade e que acho que todos os contratos de trabalho deviam ser individuais – regulados, claro – e ter pazo; opiniões que esclarecerei quando me apetecer)
Reformas do Estado, zero. O problema é que todas as reformas que o bom senso impõe e a UE propõe, vão ao arrepio dos desejos dos parceiros do PS e de muita malucagem dentro do próprio PS.
Razões de esperança? Não sei se, mesmo com grande esforço de boa vontade, é possível encontrá-las, pelo menos a médio e longo prazo.
O que foi interrompido na lenta e dura recuperação do país vai deixar marcas muito fundas. O que resta não chega. O que se pode prever é um susto.
Os milagres da geringonça têm pés de barro.
26.5.17

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