Foi vasta a lista de escolhidos para o nunca acabar de loas com que o chefe Costa brindou a sua gente nas discursatas do congresso. Até o causídico Arnaud, alegado “pai” do SNS, foi requisitado às catacumbas da maçonaria para ser objecto de reconhecimento e aclamatória eleição.
Soares ficou de fora, suspeito que é (nunca se pronunciou sobre o assunto) de não se incluir nas entusiásticas hostes do front populaire. Compreende-se. Dona Catarina e o camarada Jerónimo podiam não gostar de ouvir falar dele. Uma chatice. A sala, sempre meio vazia, era um sinal inquietante da existência de desalinhados, muito para além dos três que se pronunciaram. Soares ainda existiria? Eis a angustiante questão. Na dúvida, esqueça-se.
A ideia do front populaire esteve sempre latente na agremiação. Soares não gostava. Logo ao princípio, viu-se aflito para acabar com o Manuel Serra e com o “partido socialista partido marxista”. Quando, em 82, se discutiu a revisão constitucional, importantes matérias ficaram de fora porque Soares, concordando com elas, se queixava de não ter margem para segurar as hostes da esquerda do partido, à altura chefiadas pelo famoso “secretariado”, sob a alta direcção do sinistro Sampaio e do almofadado Guterres. Soares tinha colaborado na extinção da tutela militar do regime e na alteração dos poderes presidenciais, a fim de evitar cenas como a do terceiro-mundismo pintassilguista, ou do tecnocratismo nobredacostista, bem como noutras aventuras demonstrativas da sede castrense de Eanes e da sua “consistência” ideológica. Mas não conseguiu ir mais longe. Mais tarde, viria a ser o motor do bloco central, de má memória mas com boas razões de origem. Depois, Soares não foi na conversa do PRD e fez sair pela culatra o tiro do derrube do primeiro governo Cavaco. Tudo à revelia da ala esquerda do partido, sempre contida por Soares.
Mas, qual caruncho, ela lá foi minando. Sampaio fez a coligação com o PC para a CML, e viria a cavalgá-la até Belém. Depois, até aos nossos dias, as picaretas de muitos galambas e pedrosnunosantos continuaram a sua obra.
Até que… até que, com o advento da “palavra honrada” do chefe Costa, ganharam na secretaria o que tinham perdido nas urnas. Finalmente, o front populaire, um fartar vilanagem de que Soares não faz parte. Daí que o congresso o tenha esquecido, assassinando-o por omissão.
O IRRITADO não é, nunca foi, um admirador de Soares. Mas reconhece o seu papel na contenção do esquerdoidismo hoje vigente, com a sua floresta de enganos, os seus saneamentos gonçalvistas, as suas políticas ruinosas, a sua ultra ideologização do país, o seu sectarismo violento.
Soares deixou de fazer parte do elenco.
8.6.16

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