NB. Isto é teoria da conspiração, ou nem por isso.
*
– Ando à rasca com isto, pá.
– E eu? Deixaste-me sozinho. Andei para aí aos bordos que nem uma barata tonta, e tu a banhos…
– Não leves a mal, pá. No fundo, dei-te protagonismo!
– Pois, ‘tá bem… e agora?
– Tenho andado a pensar no assunto. Acho que precisamos de um decoy.
– De um quê?
– Um chamariz, pá, o teu inglês anda por baixo.
– Olha quem fala! Um chamariz para quê?
– Gaita, pá, parece que estás diminuído. Para desviar as atenções, para que é que havia de ser? Se não arrajarmos uma para os tipos se calarem com os mortos e as granadas…
– Pois, estou a ver a ideia. Tem que ser uma coisa de arromba, daquelas ocupam tudo, as notícias, os comentadores, uma coisa que tire espaço às chatices… tens alguma sugestão?
– Ando cá a pensar. Pensa tu também, e logo à tarde falamos.
…
– Então, pá, tens alguma ideia?
– Não. Se, por exemplo, morresse o Ronaldo, teríamos tudo do avesso. Mas…
– Parece que ou és parvo, ou estás a contar com o ovo no cu da galinha?
– Pois, tens razão, não sei o que diga nem faça.
– Pois eu cá ando a pensar numa grande malha, uma coisa que, parecendo má para nós, por um lado nos prestigie em matéria de honra e de correcção e, por outro, ocupe as atenções da malta.
– O quê, por exemplo?
– Parece que os tipos da procuradoria andam a mexer naquela história do Euro, das viagens da Galp.
– Quê? O que tem isso a ver com as chatices?
– Muito. É uma chatice que chateia pouco e desvia as atenções. Olha, arranjávamos uns gajos cá da malta, dos que foram à borla a Paris, uns tipos fixes, que se sacrificassem. Sem medo, porque depois compensávamo-los de qualquer maneira. Os gajos pediam a demissão, diziam que queriam ser ouvidos, arguidos, etc., na evidente certeza de que, no fim, não teriam problema nenhum. A coisa dava brado, ocupava páginas e páginas, os moralistas entravam em acção, os politólogos não se calavam, os telejornais ficavam cheiinhos. Nós dávamos uma de homens de alta responsabilidade e, mais importante ainda, tratando-se de pecadilhos que toda a gente perdoa, não perdemos prestígio, antes ganhamos, ’tás perceber?
– Genial, pá. Fantástico. Já falaste com os gajos?
– Não. Vou tratar disso agora.
Horas depois:
– Hihi, ‘tás a ver? Já não se fala noutra coisa. Os rapazes sacrificaram-se, são uns heróis. A coisa retumbou, passou para o primeiro plano, as hostes vão passar os próximos dias entretidas com aquilo. E eu vou dar um baile do caraças na quarta-feira. Vais ver.
– És um génio, António!
– Olaré, Augusto, vais ver, já ganhámos mais esta.
11.7.17

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