O IRRITADO não percebe patavina de altas finanças nem de negócios propriamente ditos, isto é, dos que metem dinheiro a sério, coisa tão rara em Portugal desde os tempos do PREC, tempos em que, por gloriosa intervenção sovieto-estúpida, o dinheiro se foi embora para não mais voltar.
Por isso que tenha que pedir desculpa aos inúmeros sábios da nossa praça da ousadia de vir pronunciar-se sobre o magno problema da privatização da RTP.
Dizem os entendidos, unanimemente, que “não há espaço”, em Portugal, para três canais de sinal aberto.
Os excelentíssimos Drs. Pinto Balsemão e Pais do Amaral, acompanhados por inúmeras altas personalidades, aplaudem freneticamente esta tão douta opinião dos especialistas.
Muito bem. Agora, vejamos.
Se “não há espaço”, por alma de quem é que os excelentíssimos estão tão aflitos com a hipótese de privatização?
Diz o mais simples raciocínio que, se “não há espaço”, não há compradores, porque ninguém quer fazer negócios onde não há espaço para facturar. Portanto, podem os excelentíssimos ficar descansados. Mesmo que o governo tome a sábia decisão de privatizar o canal 1, como não haverá compradores, diz a lógica (deles), não poderá haver privatização. Então porque estão preocupados?
Trata-se de um mistério insolúvel.
Outro mistério insolúvel é o que se refere à filosofia dos excelentíssimos: ambos se declaram, e muito bem, ferozes adeptos a “libertação da sociedade civil”. Então, como é possível acharem que a tal sociedade deve pagar, à razão de milhares de milhões por ano, o piscar de olho do senhor Rodrigues dos Santos, só porque eles querem proteger o seu mercado? Ainda por cima contrariando os mais que legítimos interesses da sociedade? Ainda por cima à revelia dos seus “sentimentos” e “convicções” liberais. Ainda por cima à custa das suas “teorias” sobre a sagrada concorrência?
Nada disto faz sentido, nada disto revela coerência. Ideias e convicções mandadas às urtigas quando se acha que pode estar em causa o “equilíbrio” do mercado, ou seja, o domínio dele a dividir por dois em vez de três ou mais? Ao mínimo abanão, ou hipótese de abanão, aí está o proteccionismo a ser defendido por quem, da boca para fora, o condena?
O IRRITADO tem uma solução que contentaria os excelentíssimos sem prejudicar a malta, ou os apregoados “princípios”, “ideias” e “valores”: acabar com a RTP.
Assim:
Com os subsídios e os impostos que a RTP recebe num ano, punha-se aquela malta toda na rua, a começar, simbolicamente, pelo senhor Rodrigues dos Santos. Nos anos seguintes já não haveria impostos para os do costume nem despesas para o Estado. E os excelentíssimos ficavam com o mercado todo! Querem melhor, hem?
Conceda-se que convinha ao país que a RPT Internacional e a RTP África continuassem a existir.
Mas não há já a SIC Internacional e a TVI Internacional?
Nestes canais, podia o Estado podia introduzir os conteúdos “nacionais” que entendesse, contratando tempo de antena com os excelentíssimos por troca das vantagens que terão em ficar sozinhos no mercado. O que quer dizer que, bem negociado, sairia de borla ao Estado e ao contribuinte, sem prejuízo do serviço que se entende por necessário.
Será uma solução demasiado simplista?
Não é. É simples, coisa que, desgraçadamente, não está nos nossos hábitos nem sustenta chusmas de funcionários, de conselheiros, de juristas e de outros tipos que têm o vício de se meter em tudo o que cheire a euros. A complicação dá muita massa a ganhar e, por isso, o que é simples não interessa a quem “sabe”.
Pode ser que o Dr. Portas (Paulo) leia isto e se deixe de parvoíces.
5.6.11
António Borges de Carvalho

Deixe um comentário