O senhor Pinto de Sousa, rezam as crónicas, disse que não a tudo o que a comissão de inquérito lhe perguntou.
Tudo mentira! Verdade verdade, só as manobras ocultas das forças do mal, as conspirações malevolentes com que o perseguem, as bruxas, sei lá.
Das duas, uma: ou o PM sabia de tudo e estava por trás de tudo (uma implica a outra), ou não sabia de nada e foi, como teve a amabilidade de explicar, “informado” pela dona Manuela e pelo Presidente “só no dia 25 de Junho”.
No primeiro caso, haverá que chegar à conclusão a que o Dr. Pires de Lima já chegou há muito: o primeiro-ministro não passa de um “aldrabão de feira”.
No segundo, a conclusão é tão grave como a anterior: trata-se de um primeiro-ministro que não faz a mais pequena ideia acerca do que se passa com as empresas onde guarda, tão ciosa como incompetentemente, o poder decisivo do Estado.
Qualquer das duas conclusões possíveis deveria levar à sua imediata demissão, se ou ele ou o PS ainda tivessem um restinho de espinha dorsal. Como não têm, tudo vai ficar na mesma. O senhor Pinto de Sousa continuará a meter os dedos pelos olhos das pessoas dentro, a atentar, mais que não seja pela sua presença no poder, contra a inteligência e a dignidade dos cidadãos, ao mesmo tempo que ouve as loas dos rodrigues, dos vitalinos, dos lacões, dos lelos, etc., que goza o agrément presidencial e que é brindado com os trejeitos espinais do inacreditável Passos.
No meio desta desgraça, é de perguntar o que queria a douta comissão parlamentar.
Pôr uma data de gente a dizer que é preto e outra tanta a dizer que é branco?
Pôr o senhor Pinto de Sousa a desempatar?
Como queriam saber fosse o que fosse da verdade se as principais provas foram destruídas e se as que existem são, com a mais vil cobardia, postas de lado pelo PC, pelo BE, pelo PSD e pelo CDS?!!!
Como é possível que os senhores deputados não percebam, ou não saibam, que nada têm a ver com processos judiciais, com limites processuais, com julgamentos do foro penal?
Como é possível que se escudem com argumentos desse campo, quando o que lhes compete é, exclusivamente, fazer o julgamento político da personalidade do senhor Pinto de Sousa e da respectiva idoneidade para ocupar o lugar que ocupa?
Como é possível que finjam desconhecer que, para uma comissão parlamentar, são válidas as fontes que a própria comissão achar credíveis, quer os tribunais as aceitem como tal quer não?
Haverá algum país civilizado onde os deputados abdiquem, desta desastrosa forma, do cumprimento do mandato que lhes foi conferido pelos cidadãos, a si próprios impondo uma capitis diminutio que nada pode justificar?
Será que têm medo de ser confundidos com as forças ocultas?
O IRRITADO, desde o princípio desta medonha história, vem dizendo que a comissão parlamentar não vai servir para outra coisa que não seja safar o senhor Pinto de Sousa de mais uma.
Chegou o momento de o IRRITADO chegar à tristíssima conclusão de que o seu prognóstico estava certo.
É que, se os senhores deputados não exigiram ao PS que o senhor Pinto de Sousa fosse apeado assim que se soube do inglês técnico, nem quando vieram a lume os projectos lá das Beiras, nem em nenhuma das inúmeras ocasiões em que ficou mais que provada a absoluta não idoneidade do homem para ser primeiro-ministro, porque carga de água iriam fazê-lo agora?
No fundo, mais trafulhice menos trafulhice, que importa? Nada.
É ao que chegámos.
Quem aturou, na prática coonestando sem exigências de maior, o mar de casos e de rabos de palha em que o senhor Pinto de Sousa tem sido pródigo, é agora que vai pôr tudo em causa?
Credo, não!, diz a vilania por toda a parte instalada.
Credo, escutas não!, diz a cobardia anti-portuguesa de toda a malta.
Credo, nem pensar!, diz o Passos, possuído de radical oportunismo.
E nós, portugueses, cá ficamos, com milhares de dedos metidos nos olhos, num oceano de mentiras, de fugas em frente, de parlapatices validadas pela cobardia dos “pais da Pátria”.
Cá ficamos, reféns de juízos errados de autoridades judiciais que se desautorizam porque, queiram ou não queiram aceitá-lo, construíram uma muralha de protecção ao senhor Pinto de Sousa.
Cá ficamos, representados por deputados, partidos e líderes políticos que poderiam, conceda-se, aceitar como boa a muralha judicial, mas que tinham a mais elementar obrigação de, politicamente, a abater.
O governo, é voz corrente, já deixou de existir.
O parlamento é o que acima se descreve.
O presidente anda entretido a dizer que, se pisa os seus próprios princípios, é por causa da crise (se eu fosse Papa excomungava-o).
Os tribunais nem vale a pena dizer em que estado estão.
Em suma, o regime não existe, a Democracia tornou-se insubstante, ridiculariza-se todos os dias, desilude as gerações mais novas que, para bem e para mal, não têm outras referências senão “isto”.
Como diria o camarada Vladimir Ilitch Ulianov: que fazer?
18.5.10
António Borges de Carvalho

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