IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


POLICIAMENTO DE PROXIMIDADE

 

O Irritado tem-se irritado recorrentemente contra os malefícios da polícia. Às vezes, quando, no que diz respeito à vigilância das ruas, a acusa de integrar um bando de inúteis, sente o Irritado que talvez esteja a ser um bocadinho injusto.

Quantas vezes, porém, a realidade ultrapassa as nossas mais negras opiniões?

 

Passo a contar uma história absolutamente extraordinária:

 

Às quartas-feiras, costumo ir buscar três das minhas netas ali para a Lapa. Anteontem, as pequenas insistiram em ir dar uma volta pelo jardim da Estrela. E lá fomos. A passeata não teria história não fora dar-se o insólito caso da presença da PSP. Insólito porque, entre criancinhas aos pulos, velhotes a jogar à sueca, mamãs a empurrar carrinhos de bébé, estudantes a ler compêndios, namorados em tórridas poses, surgiu, de sopetão, um Smart profusamente decorado com frases do tipo eco-idiota. Lá dentro, imperiais, dois guardas “vigiavam” a turba, tipo Dom João V no seu coche, a olhar o povo ignaro. Majestoso, o Smart percorreu as umbrosas áleas até se perder lá para os lados do Cabral.

 

E é assim que se faz o chamado “policiamento de proximidade”, expressão tão cara à propaganda do senhor Pereira. Os senhores guardas, certamente para de poder reservar energias para perseguições a terríveis bandidos, não podem cansar-se. Por isso, andam de automóvel, até nos locais onde jamais deveria entrar um automóvel.

De certa forma, compreende-se. Segundo a filosofia do governo, é preciso “prestigiar a polícia”, impondo-a à admiração das pessoas. Ora não se prestigia um polícia fazendo-o andar a pé no meio da multidão e podendo, assim, descer ao seu estatuto de ralé. Não é? Aliás, se os senhores guardas atropelarem uma criancinha no Jardim da Estrela, a culpa será, ou do Smart, cujos travões falharam, ou da própria criancinha, que não tem nada que andar a brincar no Jardim da Estrela, impedindo ou atrapalhando o “policiamento de proximidade”.

 

Eu, que me atrevia a escandalizar-me ao ver os polícias a passear de segway no Chiado, não estava, ainda, psicologicamente preparado para a presença de Smarts no Jardim da Estrela. O defeito deve ser meu, que não percebo que a rua do Carmo é a subir, que o Jardim da Estrela tem dois mil metros de perímetro (colossal distância!), e que seria de uma violência inaudita fazer os aristocratas da PSP andar a pé em tão cansativos teatros de operações.

 

António Borges de Carvalho


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