IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


PARA FARMACÊUTICOS INDIGNADOS

 

Vários leitores do Irritado se lhe dirigiram, indignados com as suas opiniões acerca da polémica dos genéricos a da posição, nela, da Associação Nacional de Farmácias. De ignorante a mal intencionado, de tudo um pouco foi o blogue apodado.

 

Muito bem. Obrigado pelas opiniões expressas.

 

Em vez de responder a todas e cada uma delas, valerá a pena esclarecer, com destino a quem o queira, a opinião do Irritado.

 

Antes de mais, diga-se que o Irritado foi “percursor” nesta matéria, tendo-se manifestado logo que as primeiras informações surgiram na imprensa, antes da actual chuva de notícias e comentários.

À altura, o Irritado ainda não sabia muitos dos contornos do assunto. Razão pela qual, apesar das suspeitas que o inquietavam, confessa que tinha dúvidas quanto às motivações que levariam os dirigentes da ANF a dar ordens às farmácias para que recomendassem os genéricos às pessoas, mesmo quando o médico o não previra na receita. Generosidade dos proprietários das lojas, cheios de “solidariedade social”? Benesse da ANF, subitamente interessada em proteger o bolso do cidadão?

Nem uma coisa nem outra. O Irritado tinha razão!

 

É hoje público e notório que a ANF comprou um laboratório de genéricos e se prepara para entrar, ou já entrou, a sério, na respectiva indústria.

É também público e notório que os genéricos são vendidos às farmácias com promoções malucas, chegando ao ponto de lhes ser possível obter 150 caixinhas e pagar 50. Ou seja, admitindo que as farmácias têm uma margem bruta de 20% sobre o preço de venda ao público, teremos que, quando o distindo farmacêutico vende uma caixinha ao consumidor, está a praticar um preço que é qualquer coisa como 323% do seu custo! Bom negócio, não é?

Façam as contas.

 

É sabido que as associações profissionais não têm fins lucrativos e são, por isso, isentas de IRC. Nenhuma tem fins lucrativos?

Não!

A ANF tem um império económico e financeiro. Não invento, vão ao “site” da coisa, vejam o que lá está e, se quiserem, imaginem o que lá não estará.

 

É também sabido que, do merceeiro de esquina ao supermercado, as promoções dos fornecedores se reflectem em promoções dos retalhistas.

Nas farmácias, não.

Encaixam a totalidade da promoção. É que, coitadinhos, os preços são tabelados! Não podem mexer-lhes!

 

E, cinismo dos cinismos, a ANF e as farmácias armam-se em beneméritos dos doentes, impingindo-lhes remédios mais baratos para ganhar mais do dobro e atropelando uma lei que dizem não conhecer! Bem urdido, mas com o rabo de fora.

 

Em França, por exemplo, as associações deste tipo (associations loi 1901), se tiverem lucros acima de ninharias (“sobras” de tesouraria), passam a pagar impostos como os outros.

Por cá, a ANF dirá que as empresas que possui, no todo ou em parte, pagam os seus impostos.

E os resultados? Nunca são distribuídos? Os sócios Mello, por exemplo, vão nisso? É o vais.

 

Por outro lado, quando a ANF, por certo em função “mutualista”, tem actividades no crédito às farmácias, não deverá ser taxada por isso, pelo menos como os bancos, em vez de ser autorizada a investir em negócios privados?

 

O que isto quer dizer é que há entre nós gente para quem é legal não se submeter à Lei. Ou então que o governo, na sua proverbial estupidez, se esqueceu de alguns pormenores quando legislou sobre a matéria.

 

Também quer dizer que, se o Estado, ou alguém por ele, tem a mais elementar obrigação de fiscalizar a qualidade dos produtos farmacêuticos e a sua venda ao consumidor, não tem, ou não devia ter, nada a ver com os preços. A não ser, talvez, com aqueles que dizem respeito a medicamentos sem concorrência, ou em situações de monopólio.

Se assim fosse, o resultado das promoções e dos descontos dos fornecedores seria que as farmácias se esgadanhariam em baixas de preços, como é timbre de qualquer comerciante, para chamar a clientela.

Não se diga que isto não é possível por causa das comparticipações do Estado na compra de medicamentos. Nada mais errado. Basta que as comparticipações se exprimam em dinheiro e não em percentagem. Se já for assim, melhor.

 

E aqui está, um pouco mais detalhada, a posição do Irritado, desde já agradecendo aos críticos que não se irritem com ela.

 

Haverá sempre, sobretudo em Portugal, muita gente, muito “privada” e muito “liberal”, para quem as asneiras do socialismo são uma bênção.

 

11.4.09

 

António Borges de Carvalho

 

ET. Acabo de saber que a margem das farmácias não é de 20% mas de 18,5. O que tem interessantes consequências nos 323% acima referidos.

 

PS. Uma pequena ilustração: há coisa de um mês, comprei um produto dermatológico numa farmácia de Paris. Custou 9,9 euros. O produto é de fabrico francês. Em Portugal, certamente onerado com o preço do transporte, o mesmo produto custa, nas farmácias, 19,9 euros. Estão a ver?


2 respostas a “PARA FARMACÊUTICOS INDIGNADOS”

  1. Caro António Borges de Carvalhotemos um amigo comum, o António Moniz, que nos apresentou em 82, aquando do ida do concelho de Vizela à AR.Também sou farmacêutico e fui proprietário até há uma ano atrás, tendo passado a Farmácia a minha filha. Não concordo com o que diz “Para Farmacêuticos indignados”. A ANF é uma associação empresarial não profissional. A ANF não é dona das Farmácias. Quando muito pode aconselhar. Ao contrário a ANF é das farmácias.Os preços praticados não são da responsabilidade das farmácias. A indústria farmacêutica surgiu em força depois da 2ª G M. Até lá os médicos receitavam magistralmente. A farmcia escolhia o fornecedor dos principios activos e manipulava. Porque razão a Farmácia não pode agora, através da sua associação, ter um laboratório para continuar a tradição? Essas ofertas de que fala já há muito que não existem. Nunca as aceitei. Sempre exigi tudo facturado. Eram feitas por pequenos Laboratórios Nacionais para sobreviver à voragem das multinacionais. Existem imensos genéricos com o mesmo p. activo. Já viu o stock a que as farmácias são obrigadas. Faça outro artigo no seu blog mas vá ouvir as farmácias com proprietários farmacêuticos ,inscritos na Ordem dos Farmacêuticos, essa sim uma agremiação profissional. Os farmacêuticos como os médicos tem um código deontológico. Se quizer vá por aí.cumprimentosA. Campante

    1. Caro amigoLembro-me de 82, e de si também.É evidente que não sou especialista em farmácias. Há coisas, porém, que vou observando. Nunca tolerei, porque é uma limitação inaceitável à liberdade de iniciativa, que as farmácias, do ponto de vista da propriedade, fossem exclusivo dos farmacêuticos, como as fábricas não o são dos engenheiros, nem os cavalos dos cavaleiros. Nunca tolerei, porque é uma ilegítima limitação da concorrência, que as farmácias tivessem que distar não sei quantos metros umas das outras.Não sei se v. tem razão quando diz que a ANF é uma associação empresarial, mas parece-me que, em tal conceito (como acontece com a CIP ou a CCP) se pode, legitimamente, integrar actividades para-bancárias ou industriais. Não se trata, com certeza, de um consórcio, nem de uma casa de penhores…Aliás, nem a ANF tem a amabilidade de publicar os seus entatutos na Net, nem eu para ir ao jornal oficial à procura deles.O que sei é que é moralmente inaceitável que a ANF só se tenha lembrado de poupar dinheiro aos doentes, via genéricos, quando entrou no negócio dos ditos. Para mim, chega.Um abraçoABC

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