Diz-se que no melhor pano cai a nódoa, o que significa que ninguém está livre de fazer qualquer coisa ilógica em relação à sua postura habitual, coisa que prejudica o crédito de quem a usa ou faz, às vezes nem sequer entendendo que de uma nódoa se trata.
Vem isto a propósito da publicação, pelo “Expresso”, de material roubado pelo senhor Assanje, através da associação de malfeitores que criou, a Uiquiliques.
O “Expresso” é um jornal de inquestionável qualidade gráfica, um órgão importante na evolução política e social do país, o semanário que mais se vende e mais se lê.
Qualidades de excepção que não impedem que o jornal tenha sido veículo de intrigas, de “mensagens” com efeitos políticos, de criação de factos, tudo isto sobretudo sob a batuta Marcelo R. de Sousa, incontestável rei do nacional-intriguismo. Melhorou após a queda deste senhor, mas manteve visível tendência para certos recados ou para reprodução, acrítica ou interessada, de mensagens de agências e de lóbis, sobretudo no caderno de economia. Nada disto invalida, porém, o valor ou a credibilidade do “Expresso”. Trata-se de pequenas nódoas que não mancharão demais o bom pano.
O caso Uiquiliques constitui porém uma monumental machadada na honra do jornal e de quem o compra e lê.
O “Expresso”, em plena consciência, terá adquirido aos respectivos receptadores materiais provenientes de actividades criminosas, de repugnantes deslealdades, de inacreditáveis abusos de confiança, materiais cuja origem conhece, materiais que põem em causa a segurança das comunicações diplomáticas e, por conseguinte, que minam um dos pilares de uma vida internacional segura e saudável.
Poder-se-ia alegar que as revelações feitas são de irrefutável interesse nacional e tão importantes que conferem legitimidade aos meios usados para atingir fins cruciais para a nossa informação ou para a nossa segurança.
Que de importante dizem tais informações?
Que havia um embaixador dos EUA que embirrava com o Dr. Machete.
Que o mesmo embaixador, por certo algum suporter financeiro do senhor Bush totalmente ignorante em relação à tradicional política do seu governo, com Bush ou com Clinton, com Kenedy ou Reagan, com democratas ou republicanos, achava que Portugal não devia comprar fragatas, submarinos ou o que fosse – sobretudo se fosse adquirido fora dos EUA…
Que importância têm os telegramas revelados? Zero! Mas o “Expresso” faz disto a comemoração das suas 2.000 edições, sem outro critério que não seja o de causar mediático frisson e de minar uma das poucas coisas em que, apesar de tudo, ainda há algum consenso político em Portugal.
Com que direito? O de informar? Certamente que não. O de revelar coisas importantes? Ainda menos. O de vender jornais? Talvez.
Há momentos em é legítimo pensar que a nódoa que cai no pano é tão grande que passa a não se saber se ainda há pano ou se já há só nódoa.
1.3.11
António Borges de Carvalho

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