Ao ver e ouvir as insistentes, continuadas e estapafúrdias diatribes contra o discurso do PR, o IRRITADO não pode deixar de voltar ao assunto.
Para que serve, afinal, o PR? Ninguém sabe. Como ninguém sabe, vale tudo. O PR serve para apoiar a oposição quando diz coisas de que a oposição gosta. Serve para apoiar o governo quando diz coisas que agradam ao governo. Serve para levar na cabeça quando não diz nada. Serve para levar na cabeça quando diz seja o que for. Se se cala é porque se cala, se fala é porque fala, dependendo de a quem serve o silêncio ou o barulho.
O actual Presidente tem tido a infeliz ideia de dar umas no cravo outras na ferradura, além de uma triste tendência para meter os pés pelas mãos de vez em quando e de uma irresistível vontade de se meter onde não é chamado. Com isto aliado à estupidez constitucional do seu cargo, tudo fica mais difícil, para ele e para nós. Ao menos, diga-se, não é golpista como seu miserável antecessor.
Esta estapafúrdia coisa do semi-presidencialismo à portuguesa não tem nada de semelhante em qualquer país civilizado de aquém ou além-mar. É, aliás, único no mundo. Em França, o governo é o governo do presidente, mesmo que seja contra o presidente. O senhor Obama, nos EUA, a dona Grelma no Brasil, e tantos outros, são os chefes do governo. Na Europa monárquica, o Rei tem o “seu” governo porque, enquanto máximo representante da Nação, tem o governo que o seu povo escolheu. No resto da Europa Ocidental, os Presidentes são meros e preciosos representantes protocolares do país, só entrando em “acção” em casos de guerra ou crise extrema, como sucede agora em Itália. Em Portugal, o Presidente não é carne nem peixe: é uma coisa que uns burríssimos e estapafúrdios intérpretes das teorias de um senhor que se chamava (ou chama?) Maurice Duverger arranjaram e apimentaram com socialismo a rodos.
Fora daqui, o Presidente é respeitado por todos, todos se levantam quando ele aparece, todos o aplaudem, porque, gostem ou não de quem preside, sabem distinguir o seu representante das guerras políticas em que andam. É ver Obama, por exemplo, envolvido em terríveis polémicas com a oposição, ser aplaudido por unanimidade do Congresso sem distinção de partidos. É que os americanos, como a generalidade dos europeus, aprenderam com os ingleses que uma coisa são os políticos, outra a Nação, ainda que no seu caso, o Presidente vista os dois casacos. Mas nós, por via constitucional (leiam!) deixámos de ser Nação, passámos a ser só República. E que república!
Impera entre nós a mais estapafúrdia das confusões. Ao ponto de, quando o Presidente, quiçá pela primeira vez, se limita a cumprir a tal Constituição de que tantos gostam quando lhes faz jeito, isto é, quando diz umas coisas perfeitamente inócuas e evidentes quanto à situação do país e declara, como lhe compete, que precisamos de estabilidade, que deveria haver um desígnio generalizado para cooperar numa estratégia de futuro, eis que a oposição minoritária, não só não o aplaude como nega, implícita e explicitamente, qualquer intenção de cooperar seja no que for e seja com quem for. Fazê-lo não é só estapafúrdio, é estúpido e perverso.
A oposição acha, agora, há “uma maioria, um governo, um Presidente”. Não há, é uma pena, mas enfim. Na cabeça dos estapafúrdios, tal é uma desgraça. Mas, simultaneamente, como já vi e li, “uma maioria, um governo e um presidente… do 25 de Abril” seria porreiro! Fica provado que, como o IRRITADO sempre disse, o 25 de Abril dos estapafúrdios não foi democrático, foi socialista: destinava-se a, para por todo o sempre, nos dar uma obrigatoriedade socialista no meio de uma “atmosfera” democrática. Ainda não perceberam que o 25 foi há quarenta anos e que muita água passou, entretanto, por baixo das pontes.
O risco de cairmos nas mãos de gente desta é de tal maneira assustador que o IRRITADO não tem palavras para o descrever.
28.4.13
António Borges de Carvalho

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